Depois Poesia 1916-1940, acaba de sair do prelo o primeiro volume da série Teatro e Ficção da renovada coleção «Obra Completa de Vitorino Nemésio». Intitula-se: Amor de Nunca Mais, O Paço do Milhafre e o Mistério do Paço do Milhafre.

Amor de Nunca Mais é a única peça de teatro conhecida de autoria de Vitorino Nemésio. Foi publicada em «Angra do Heroísmo em 1920, pela Livraria Editora Andrade e levada à cena a 26 de março do mesmo ano, no Teatro Angrense, pela Companhia de Carlos de Oliveira, do Teatro São Luís, então em digressão pelos Açores», pode ler-se na Nota Editorial assinada por Chloé Pereira e Luiz Fagundes Duarte, coordenador editorial desta coleção.

Seguem-se neste volume os contos O Paço do Milhafre, publicado pela primeira vez em 1924 e O Mistério do Paço do Milhafre, publicado 25 anos depois, em 1949, como explica Urbano Bettencourt na nota que antecede estas duas narrativas.

« A minha primeira Ficção está no Paço do Milhafre (1924), onde me conto diretamente ('Ante-manhã') e circunstancialmente a infância (pessoas e coisas) nos restantes contos ou, mais propriamente, narrativa»
Vitorino Nemésio em carta a Hélio Simões, datada de 9 de junho de 1969

Com esta edição, destinada a um público vasto, em que cada volume é revisto e apresentado por um especialista na matéria, a Imprensa Nacional em parceria com a editora Companhia das Ilhas pretendem dar um contributo decisivo para a divulgação e o conhecimento da obra de um dos escritores que ficará para a história da literatura portuguesa do século xx: Vitorino Nemésio.
Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva nasceu na Praia da Vitória a 19 de dezembro de 1901. Há 117 anos. Foi um poeta, romancista, cronista e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e um dos mais destacados intelectuais portugueses do século XX. Viria a falecer em Lisboa a 20 de fevereiro de 1978.





Poesia 1916-1940  é o  título inaugural da mais recente coleção da Imprensa Nacional em parceria com a editora açoriana Companhia das Ilhas.  Depois da apresentação na terra natal de Nemésio, os Açores, chegou agora a vez de Lisboa acolher este lançamento.

É já dia 22 de novembro, quinta-feira, pelas 18h30 na Biblioteca Nacional de Portugal, local onde ainda se encontra, sob reserva, até 2028, uma parte do espólio deste autor maior do século XX português.

A apresentação contará com a presença do académico e nemesiano Luiz Fagundes Duarte, que ficou com o pelouro da coordenação editorial da coleção.

Contamos com a sua presença!




Vitorino Nemésio foi poeta durante 60 anos e nunca pôs de lado a poesia — atividade ininterrupta entre 1916 e 1976. É precisamente com a poesia que se inaugurara a nova coleção «Obra Completa de Vitorino Nemésio», numa profícua — e simbólica — parceria entre as editoras Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico, e a Imprensa Nacional.

Esta nova coleção, simples, sem aparato de notas e rigorosa do ponto de vista do texto, estrutura-se em quatro séries: Poesia, Teatro e Ficção, Crónica e, finalmente, Ensaio. Esta é uma forma de mostrar a obra ampla e multifacetada que Nemésio nos deixou.

A partir da próxima sexta-feira, dia 23, e até dia 30 de novembro vamos publicar, uma pergunta por dia, sobre a vida e obra de Vitorino Nemésio. A pessoa tiver mais respostas certas ganha um exemplar de Poesia 1916-1640 !

Mas atenção: as respostas não podem estar visíveis! Envie-nos todas ao mesmo tempo ou uma de cada vez, por email ou mensagem privada para a nossa conta do facebook.

Esteja atento!



As perguntas:

dia 23 - Em 1916, aos 15 anos de idade, Vitorino Nemésio era um jovem aluno do liceu de Angra do Heroísmo. É neste ano que publica o seu primeiro livro de poemas «Canto Matinal». O então jovem poeta quisera chamar-lhe «Canto Vesperal». Foi a conselho de um professor que alterou o título. Como se chamava este professor?

dia 24 - O poema «Aquele cais ali, agudo e nu», de Vitorino Nemésio, foi publicado pela primeira vez em 1940. Em que livro?

Dia 25 - Em 1933, Vitorino Nemésio é contratado pela Faculdade de Letras de Lisboa, tendo-se doutorado, no ano seguinte. Qual o título da sua dissertação de doutoramento?






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Por: Tânia Pinto Ribeiro

Costuma dizer aos seus alunos que Portugal é um país de um homem só. Quando temos Fernando Pessoa todos os outros desaparecem. O que considera injusto. Até porque já se apercebeu de que aquilo que Pessoa tem — e que faz dele um grande poeta — Antero de Quental também já tinha. «Hoje em dia todos falam de Pessoa, que já é um ícone para turistas, chegamos às livrarias e só encontramos a Lisboa de Pessoa ou os cafés de Pessoa e por aí fora… Tudo o resto fica na penumbra.»

É nesse grupo, entre a sombra e a meia-luz, que se insere Vitorino Nemésio, autor daquele que é provavelmente o maior romance da primeira metade do século XX português: Mau Tempo no Canal, cujo enredo se situa no pequeno universo de umas ilhas remotas, entre vulcões e lagoas, perdidas no tempo e no coração do oceano. Nestas cerca de 500 páginas, Nemésio mostra-nos que a identidade humana, a humanidade, é a mesma. «As pessoas têm alegrias, têm tristezas, têm ciúmes, têm dores, têm exaltações… Nemésio consegue reproduzir o drama humano, a comédia humana, se quisermos, que tem os mesmos cambiantes seja em que parte do mundo for, utilizando referências açorianas. O resto é paisagem, é cenário.» Daí a universalidade e força desta obra.

Mas diz-nos Luiz Fagundes Duarte que é no terreno fértil da poesia que encontramos um grande Nemésio. «Ele é poeta durante 60 anos!» Nemésio, de facto, nunca pôs de lado a poesia — atividade ininterrupta entre 1916 e 1976. E é, precisamente, com a poesia que se vai inaugurar a nova coleção «Obra Completa de Vitorino Nemésio», numa profícua — e simbólica — parceria entre as editoras Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico, e a Imprensa Nacional, «[n]uma atitude inteligente de ambas as partes», segundo Luiz Fagundes Duarte — que ficou com o pelouro da coordenação editorial da coleção. Luiz Fagundes Duarte estruturou esta nova coleção em quatro séries: Poesia, Teatro e Ficção, Crónica e Ensaio, uma forma de mostrar a obra ampla e multifacetada que Nemésio nos deixou. A ideia é criar uma «coleção simples, sem aparato, rigorosa do ponto de vista do texto e que seja agradável para um público que não está — nem tem de estar — habituado a ler edições eruditas».

Todavia, até 2028, ano em que se cumprem os 50 anos da morte do autor, continuará inacessível poesia e outros escritos inéditos de Nemésio. «Uma parte do espólio de Vitorino Nemésio está sob reserva na Biblioteca Nacional. Alguém que não foi o autor — e que segundo as minhas informações foi David Mourão-Ferreira, com as competências que tinha na altura — entendeu que aqueles papéis deveriam ficar sob reserva.» Um poder que não se sabe se foi conferido pelo próprio Nemésio ou se pelos herdeiros deste.

Diz que inserir Nemésio numa escola seria ir contra a sensibilidade dele. «O Nemésio é um académico que vai reagindo ao mundo em que vive num determinado contexto. Ele não é apologético, não é missionário de uma determinada bandeira. Mas é evidente que tem dimensões na sua criatividade que podem chegar um pouco ao neorrealismo, até ao simbolismo e algumas coisas até ao surrealismo.» Já encontrar-lhe um símbolo é mais inteligível. Nemésio gostava muito de interagir com poetas populares da ilha Terceira, que, segundo Luiz Fagundes Duarte, são pessoas extremamente elegantes no trato, na educação e muito autênticas, um pouco à medida de Nemésio. «Debaixo da farpela do professor universitário continuava a ser uma pessoa do povo, uma pessoa autêntica.» E por isso Luiz Fagundes Duarte escolheria o «cantador popular» e a «viola regional da ilha Terceira» como símbolos do poeta.

Luiz Fagundes Duarte também é açoriano, da ilha Terceira, mas disse-nos que a geografia não foi determinante na aproximação à obra nemesiana. Mas está sempre presente no coração de um açoriano. «A geografia limita, é verdade, condiciona também, é verdade, mas também é verdade que serve de motor para que as pessoas criem mecanismos para a ultrapassar sem a abandonar.»

Luiz Fagundes Duarte é também filólogo e professor de Literatura na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Colaborou no projeto de edição crítica da obra de Eça de Queirós, fez parte da Equipa Pessoa, dirigiu o projeto de estudo e edição do espólio de José Régio, editou a poesia de Antero de Quental e, claro, de Vitorino Nemésio. Também já desempenhou funções políticas na área da educação. E tem uma visão muito clara quanto à escola do futuro: «Gostava que existisse daqui a umas décadas uma escola que acabasse com as disciplinas, porque o conhecimento não está em gavetas.» Luiz Fagundes Duarte imaginou uma escola «onde os meninos têm uma educação sistémica», como na Finlândia, por exemplo. Para lá chegar, diz, é «preciso mudar muitas cabeças». Foi o que fez Nemésio na sua longa carreira nas salas de aula. Reza a história que os alunos ficavam fascinados…

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VERSOS QU’O PAI QUE FOI P’Ó TRABALHO FEZ À SUA FILHA

Tanta frieza, inha mãe!
Incarrilha-s’ êste inverno:
Ei! Tantas lamas que teem
As istǐradas do rovêrno!

Greta-s’os pézes. E a lũa
É nova: têmos-ĕa feita!
Dês a medre e a faça nũa
Talhada só, forte e bũa,
Nacendo sã-iscorreita.

Parece o paúl da Praia
O sarrado da luzerna.
Não há nem pisca na baia,
Mins ê nã sei se lá vaia,
Qu’ia cobrando ũa perna.

A gente só tem bandalhos
Que nem bandeiras do bodo.
Ist’é que são uns trabalhos!
P’í a-fora, nos atalhos,
A gente alaga-se todo.

Inda mal loze o biraco,
E toca a mundar a ǐeito,
C’o pão de milho no saco.
Isto faz dar o cavaco,
Mins é mundar, e cum geito.

Cando não, mê pai dá fé
De qu’a gente é calaceiro:
— Anda, Pedro, pũi-t’a pé,
Qu’o carneiro mocho inté
Já s’aluvanta prumeiro.

Maria, eh moça, que fazes?
Nã desapegas do qŭente.
Vê lá que pão é que trazes;
Toma tino, qu’os rapazes
São todos três de bum dente.

E agora, bota sintido,
Nã fiques comã ismalmada,
Que já te tens divertido:
Qué-s’êsse milho iscolhido
E essa bezerra tratada.

A gente torna de brebe
E qué ver já tuǐdo pronto.
O cordeiro alvo da neve,
Não há ninguêm que lo leve,
Anda por í comã tonto.

E ó mei-dia, eh ř’paria,
Anda cá, nã sei se m’oives:
Qué-s’ũa bũa papia
De farinha alva e macia
Pǎ vê se s’ingana as coives.

Tês irmãos hoj’ veem mais cedo,
Qu’é pǒ via da toirada.
Deixá-los ir ó fòlguedo!
Vai se qués, nã teinas medo,
Que ficas bem arrumada.

Mins toma tento na bola,
Nã vaias fazê toliça;
Qu’ê já sei qu’o meste-iscola,
Qu’é filho do bate-sola,
Há ǐanos que te derriça.

Mins se topars algum moço
Da tua abetuaduira,
Nã le vires o piscoço:
Ruim cão que vê um osso
E nã lo passa à fressuira.

Qu’ó dispois, cando êle vinher
Tê comio pá licença,
Tê pai, c’o bem que te quer,
Vai dezer que sim, mulher,
Pâ cunsolar a criença.

Cásim vocês! Tamêm eu
Que’stou aqui me casei.
E o pão alvo que Dês deu,
Apresantado no céu
Seja sempre, à bũa lei!

E adês! A Virze te impare
E te dê sorte, Maria.
E sejas o sol e o ar
Do moço que te luvar
Para a sua cumpanhia.

Arco da Traição de Coimbra, 10-VII-22


Poema incluído no volume I — Poesia 1916-1940 — da coleção Obra Completa de Vitorino Nemésio, dirigida por Luiz Fagundes Duarte. Em publicação


NOTA de L.F.D. à edição de 2006: «Neste poema, o Autor procurou reproduzir, por meio do alfabeto convencional, as caraterísticas fonéticas do falar do povo da Ilha Terceira, recorrendo no entanto, quando as limitações do alfabeto não permitiam os efeitos desejados, a alguns sinais diacríticos do alfabeto fonético internacional.»