Granta é uma revista literária com publicação simultânea em Portugal e no Brasil. É dirigida por Pedro Mexia e por Gustavo Pacheco. A «traição» é o tema que serve de mote a esta nova Granta em Língua Portuguesa. Um tema multidisciplinar, transversal, global, e que acompanha a humanidade desde tempos imemoriais.
A propósito do crime de "lesa‑majestade", ou seja, de traição ao rei, dizem as Ordenações Manuelinas (1521) "que é a pior cousa, e mais abominável crime que no homem pode haver, a qual os antigos sabedores tanto aborreceram, e estranharam, que a compararam à gafém [lepra], porque esta enfermidade enche todo o corpo sem se nunca poder curar […]; o erro da traição não somente condena o que o comete, mas ainda empece e infama todos os que de sua linhagem descendem, posto que culpa não tenham". Quinhentos anos depois, ainda consideramos a traição "abominável", embora nem todas as traições, e certamente não a traição por contaminação genealógica. Este número da Granta investiga diferentes traições, em diferentes domínios, com diferentes motivos. Serão essas traições todas iguais, ou haverá traições menos iguais que outras, traições compreensíveis, virtuosas até?
   Pedro Mexia, in Granta


No dia 2 de agosto de 1914, Franz Kafka anotou em seu diário: “Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. De tarde fui nadar.” No dia 12 de maio de 2020, anoto em meu diário: “Hoje morreram 881 pessoas no Brasil por causa do coronavírus. De tarde fui escrever a apresentação para a Granta.” Jamais teríamos acesso ao diário de Kafka, assim como a muitas de suas obras, se seu amigo Max Brod não tivesse ignorado o pedido de queimar todos os seus manuscritos após a sua morte. Viva a traição! Onde estaríamos sem ela?
Gustavo Pacheco, in Granta

Colaboram neste volume: Diana Athill, Edyr Augusto, Wolf Biermann, José Pedro Cortes,
Kalaf Epalanga, Adam Foulds, Regina Guimarães, Noemi Jaffe, John le Carré, Helder Macedo, David Means, Paulo José Miranda, Carlos Eduardo Pereira, Paulo Portas,  Alexandre Vidal Porto e Larissa Zaidan.






Ondas Médias | O Segredo de Ouro Preto e Outros Caminhos é o primeiro volume da série Crónica da «Obra Completa de Vitorino Nemésio», uma coleção da Imprensa Nacional em parceria com a Companhia das Ilhas.

Destinada a um público vasto, em que cada volume é revisto e apresentado por um especialista na matéria, a Imprensa Nacional e a editora Companhia das Ilhas dão assim um contributo decisivo para a divulgação e o conhecimento da obra de um dos escritores que ficarão para a história da literatura portuguesa do século XX: Vitorino Nemésio.

Ondas Médias é o resultado da colaboração assídua e relativamente longa do escritor com a Emissora Nacional, através de crónicas radiofónicas, isto é, escritas para serem lidas e ouvidas aos microfones da Emissora Nacional.

O Segredo de Ouro Preto e Outros Caminhos, por sua vez, compila crónicas de viagem, a primeira ao país-irmão, o Brasil, e combina-as com poesia de feição brasileira, resultante da comoção inevitável do escritor com a outra margem lusa do Atlântico.

A coleção «Obra Completa de Vitorino Nemésio» tem direção literária de Luiz Fagundes Duarte. O presente volume conta com uma Nota Editorial de autoria de Cláudia Cardoso.

Ondas Médias regista textualmente os primeiros acordes voláteis do grande comunicador através das ondas hertzianas, mais tarde confirmados no palestrante do programa televisivo «Se bem me lembro». A ironia que o título indicia, sugerindo uma inevitável mediania, tem lastro posterior com o autor a considerar que «estas palestras, escritas para o microfone da Emissora Nacional de Radiodifusão, levam no título hertziano de ‘ondas médias’ uma intenção simbólica da sua radical mediania». Trata-se, portanto, de palestras literárias, emitidas no início dos anos de 1940, no contexto de uma Europa em guerra, num país em plena ditadura, dominado pelo medo e pela censura, e dirigidas a um público debilmente habilitado à sua integral descodificação. Porém, este público fiel ouvia atento crónicas que, na sua essência, recuperam figuras da história e da cultura nacionais, contrariando tendências e modismos e até, provavelmente, o interesse dos ouvintes. A questão não era o assunto, era a forma. Como comunicador, Nemésio gerava interesse mesmo sobre o mais desinteressante assunto, na emissão radiofónica no «Ciclo de Cultura Popular», superando em audiência as «Conversas em Família» de Marcello Caetano, entre 8 de janeiro de 1969 e 28 de março de 1974. As emissões prolongaram-se entre 26 de abril de 1942 e 15 de novembro de 1944, pelo menos, de acordo com os carimbos da emissora nos originais datilografados pelo autor; por mais de dois anos, portanto.
(...)
Em 1945, quando publica Ondas Médias, o autor tem 44 anos e uma carreira consolidada na Universidade, tendo obtido o grau de professor catedrático três anos antes; recebe, neste ano, o Prémio Ricardo Malheiro da Academia das Ciências de Lisboa; e publica a segunda edição de Mau Tempo no Canal. Nove anos depois, em 1954, quando publica O Segredo de Ouro Preto e Outros Caminhos, dá-nos conta do fascínio pelo irmã-atlântico e da necessidade de uma plataforma de entendimento luso-brasileiro.
(...)
O Segredo de Ouro Preto e Outros Caminhos, publicada (com uma tiragem de 40 exemplares) em 1954, nove anos depois, portanto, de Ondas Médias, é dedicada, na sua 1.ª edição, a José Manuel da Costa e a Augusto Meyer, e abre com um antelóquio, que precede as diversas jornadas: as cariocas, a paulista e as baianas. Trata-se, igualmente, de uma obra que reúne dispersos, incluindo crónicas publicadas no Diário Popular e emitidas na Emissora Nacional de Lisboa, numa compilação que resulta do périplo brasileiro do escritor, por diversas cidades: Rio de Janeiro, São Paulo e Baía, revelando que a sua ligação ao Brasil não era estritamente académica e cultural, mas era, sobretudo, afetiva. Este livro é uma compilação de textos de diversas proveniências, incluindo poesia, romanceiro e crónica. Parte dele — os dez poemas da secção «Romanceiro da Baía» — transitou posteriormente, com ligeiras alterações, para Nem Toda a Noite a Vida (Lisboa, Ática, 1952), depois para Violão de Morro / Nove Romances da Bahia (Lisboa, Edições Panorama, 1968), e, finalmente, para Poemas Brasileiros (Lisboa, Bertrand, 1972), sob a designação «9 Romances da Bahia», que passa a acolher, ainda, o poema «No cemitério de Santa Efigénia de Ouro Preto», que constituía a primeira parte da secção «O Segredo de Ouro Preto», com o título modificado.

Cláudia Cardoso in Nota Editorial.





Cypriano Joseph da Rocha. Relato de uma vida entre Portugal e o Brasil na «Idade do Ouro», de António Andresen Guimarães, é um ensaio que percorre o trajeto de vida, privada e pública, de Cypriano Joseph da Rocha que a 26 de maio de 1728, deixa Lisboa, acompanhado pelos dois filhos, e embarca, na Ribeira das Naus, rumo ao Brasil.

Cypriano José da Rocha vai ocupar, na capitania da Baía, o cargo de juiz dos órfãos, por mercê de Sua Majestade el-rei D. João V, o Magnânimo, e uns anos mais tarde, na capitania de Minas Gerais, o de ouvidor da comarca de Rio das Mortes, esse extenso território que, provavelmente ele não o saberia, era maior do que o Reino que ele deixava.

Este ensaio tem pois enfoque no período brasileiro, onde se destaca a missão que levou Cypriano Joseph da Rocha sertão adentro, à descoberta das minas do Rio Verde, ultrapassando os rios Baependi, Lambari e Sapucaí, e que tem um momento marcante na fundação, como ele designou, de um arraial a que pôs o nome de Arraial de São Cipriano.

Ultrapassada a fase de adaptação, ao clima, à alimentação, aos costumes e à vida social de um território em desenvolvimento e também em expansão para novas fronteiras, vivendo as mutações económicas, sociais e políticas que o novo ciclo do ouro trazia à América portuguesa, Cypriano integra-se nesse novo mundo, de que dá conta nas cartas que regularmente foi escrevendo a sua mulher.

Escreve António Andresen Guimarães na «Introdução» ao livro:

O nome de Cypriano Joseph da Rocha não figura em nenhuma enciclopédia,muito menos em qualquer compêndio de História. Segundo os critérios de uma história tradicional, não foi estadista célebre ou militar que mereça ser recordado pelos seus feitos heróicos; não deixou obra literária, nem fez qualquer descoberta científica que preserve o seu nome. Não se lhe conhecem qualidades excecionais que justificassem que o seu nome ficasse gravado na História. No entanto, o nome de Cypriano Joseph da Rocha, cuja biografia aqui ensaiamos, sobreviveu à passagem do tempo, num círculo limitado de influência é certo, mas tal não significa que o conhecimento da sua vida não constitua motivo de interesse. Pelo contrário, como procurarei dar testemunho.
Quando comecei a interessar-me por esta personagem e fui fazendo as minhas pesquisas, surpreendi-me com as inúmeras vezes que o seu nome aparecia citado. Na atribuição de fundação de cidades, na sua toponímia, em diversos estudos sobre a história de Minas Gerais, etc., Cypriano Joseph da Rocha constituía uma referência. Comecei a ler esses estudos e a ganhar interesse pela personagem. O facto de ser seu descendente direto me dava um impulso e interesse pessoal acrescido e motivação para investigar e aprofundar os conhecimentos e dados que ia recolhendo. E, sobretudo, por dispor de acesso privilegiado a fontes documentais diretas e inéditas, que permaneceram durante séculos preservadas na casa onde Cypriano viveu e morreu e que, por sucessão, pertence ao autor deste ensaio biográfico. (...)

in «Introdução» de Cypriano Joseph da Rocha. Relato de uma vida entre Portugal e o Brasil na «Idade do Ouro»




Alvaro Pirez é o mais antigo pintor nascido em Portugal documentado na região da Toscana, em Itália, onde trabalhou entre 1410 e 1434. A assinatura que deixou no retábulo da Igreja de Santa Croce de Fossabanda, próximo de Pisa, onde se diz oriundo de Évora, e uma curta referência do grande historiador Giorgio Vasari, de 1568, que o nomeava «Alvaro Piero di Portogallo», comprovam a sua origem.

Alvaro Pirez d'Évora. Um Pintor Português em Itália nas Vésperas do Renascimento é o título do catálogo da exposição homónima que decorre até 15 de Março de 2020 no Museu Nacional de Arte Antiga, organizada em estreita colaboração com o Polo Museale della Toscana. A exposição é comissariada por Joaquim Oliveira Caetano (Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga) e Lorenzo Sbaraglio (Polo Museale della Toscana)

Esta edição, ricamente ilustrada e cientificamente documentada através do contributo dos especialistas que nela participaram, assinala de forma indelével o testemunho da mais completa exposição de sempre dedicada ao pintor português do século XV, Alvaro Pirez, conjuntamente com outras obras de grandes pintores toscanos do seu tempo. A coordenação cientifica é de Joaquim Oliveira Caetano e Lorenzo Sbaraglio. A Coordenação editorial é de Ana Sousa com o apoio de Inês Gaspar Silva e Miguel Soromenho. Conta com textos de Alberto Lenza, Andrea Staderini, Angelo Tartuferi, Antonia d’Aniello, Antonia Solpietro, Carl Brandon Strehlke, Caterina Bay, Chiara Marcheschi, Christopher Daly, Cristina Gnoni Mavarelli, Daniela Parenti, Dora Sallay, Elisa Brunoni, Elisa Camporeale, Emanuele Zappasodi, Federica Siddi, Giulia Scarpone, Jerôme Hayez, Joaquim Oliveira Caetano, Lia Brunori, Lorenzo Sbaraglio, Luísa Penalva, Maria Falcone, Maria João Vilhena de Carvalho, Marilena Tamassia, Valentina Catalucci e Virgínia Caramico.

A qualidade plástica e a importância histórica do pintor Alvaro Pirez d’Évora, de quem se conhecem pouco mais de 50 pinturas, artisticamente enquadradas na pintura centro-italiana da época, justificam a organização de uma grande exposição sobre a sua obra e a sua época, que será apresentada no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, entre 29 de novembro de 2019 e 15 de março de 2020.
Da exposição fazem parte pinturas conservadas em Portugal, entre elas a preciosa Anunciação que pertenceu à coleção do chanceler alemão Konrad Adenauer, e ainda obras dos grandes pintores toscanos do seu tempo. Incluindo cerca de 85 peças, pretende-se apresentar também o contexto cultural e artístico em que se desenvolveu a arte de Alvaro Pirez d’Évora. Esta mostra, a mais completa realizada até hoje, contará com empréstimos de grandes museus europeus, entre os quais se destacam a Gemaldegalerie (Berlim), o Musée du Petit Palais (Avignon), o Museo Nazionale di San Matteo (Pisa), a Pinacoteca Nazionale di Siena, a Galleria d’Arte Moderna (Milão), as Gallerie degli Uffizi (Florença), e ainda de muitas outras instituições museológicas e coleções privadas de referência, de Itália, França, Alemanha, Hungria e Polónia.
in http://www.patrimoniocultural.gov.pt/



Turquesa, de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, é a mais recente novidade da coleção «Plural». O volume reúne os poemas dos livros Vento (1983), Conhecedor de Ventos (1987), A Próxima Cor (1993), O Valete do Sétimo Naipe (1994), A Sorte Favorece os Rapazes (2001), O Afastamento Está Ali Sentado (2002), Malva 62 (2005), Dióspiro (2007), A Casa da Meia Distância (2010) e Já Passei Por Aqui (2015).

Turquesa conta ainda com um longo e brilhante Prefácio, «Excentricidade e Extemporaneidade da Poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues», de autoria do também poeta Rui Lage.

A condição de Daniel Maia-Pinto Rodrigues na poesia portuguesa é uma condição excêntrica e extemporânea. Excêntrica por referência ao centro gravítico da Literatura enquanto instituição e fenómeno sociológico. Extemporânea porque desancorada da historicidade, a começar pela história da poesia; porque existe nos seus próprios termos, deslaçada das aporias e disforias daquilo que apelidamos de contemporaneidade. Dessa excentricidade e dessa extemporaneidade brota o seu efeito de estranhamento; e, porventura, o seu salvo-conduto para o porvir.

Poeta extraviado do território onde atuam as instâncias legitimadoras da instituição literária — ou o que resta delas —, dissociado de qualquer genealogia ou corrente estética reconhecível, grupo ou publicação coletiva, alheado de polémicas e querelas (hoje, de resto, praticamente extintas), a sua «fortuna» editorial tem oscilado entre o artesanal e o marginal, com a ressalva das defuntas edições Quasi, onde surgiu, em 2002, a sua primeira recolha antológica (O Afastamento Está Ali Sentado), e, em 2007, a sua obra poética completa (Dióspiro. Poesia Reunida: 1977-2007). Essas duas publicações, a que se vem juntar a presente antologia, constituem o zénite de um percurso iniciado com Vento, em 1983, e que abarca uma dezena de livros. Face a essas duas recolhas, a crítica fez-se desentendida ou, inábil para lidar com a sua singularidade, caiu no equívoco. Assim tem sido até hoje.

Rui Lage in Prefácio


Daniel Maia-Pinto Rodrigues nasceu no Porto em julho de 1960. Turquesa  é o seu vigésimo livro. O livro A Próxima Cor foi distinguido com o 1.º Prémio Nacional Foz Côa Cultural em 1986 e obteve a Menção Honrosa / Novos Valores da Cultura, atribuída pelo Ministério da Educação e Cultura, segundo o parecer do júri constituído por Fiama Hasse Pais Brandão, Vasco Graça Moura e José Fernando Tavares, em 1988.

O volume Dióspiro, Poesia Reunida (1977-2007), com um ensaio de Rui Lage, foi considerado, pela Universidade do Minho, o melhor livro de poesia editado em Portugal no ano de 2007. Mário Cláudio, Rosa Maria Martelo, Pedro Eiras, Manuel António Pina e Rui Lage escreveram, em prefácios e posfácios, sobre a sua obra.  Daniel Maia-Pinto está representado em mais de trinta antologias literárias, diversas das quais publicadas pelas principais editoras portuguesas.


CONTO DE INVERNO

Era no inverno
e mais do que no inverno, no passado.
Andando um tanto ao acaso
dão connosco pela frente
os bosques da América do Norte.
O inverno, como tendo em conta o nosso esforço
não se nos apresenta rigoroso.
Por aí se vê que a natureza
apesar de bastante fria
continua acessível a um europeu do sul.
Dir-vos-ei apenas que cheguei era já noite
e dispenso-vos as minudências
as atitudes mais ou menos adivinháveis —
apresentações, perguntas, pequenas curiosidades —
até porque não as houve em demasia
e avançava já para a esplêndida sensação
proporcionada pela iminência do alce.
Não querendo carregar nas teclas do fantástico
sublinharia porém o tremeluzir do acampamento
à luz da fogueira, a disposição das personagens
a musicalidade de ralos e de mochos
A noite era imensa entre o arvoredo
como nunca mais o veio a ser
e a lua refletir-se-ia por certo
em algum charco que eu haveria de ver
uns determinados dias depois.
O acampamento era irreal
de tão perfeito nas suas premissas
e alguém que se afastasse
ainda que impercetivelmente
dava a quem o visse
a inexplicável certeza
de toda uma razão de existir.
Um qualquer arfante perigo encantatório
passeava-se atávico
na escuridão do bosque de coníferas.
Adormeci ao som das brasas
derretendo a gordura dos ossos do corço
e sonhei com o meu tempo
que estaria, sem que bem me apercebesse
para advir em tempos de máquinas
e de capacidades intelectuais proveitosas.

Turquesa, págs. 131 e 132


Turquesa teve direção literária de Jorge Reis-Sá,  capa e design de André Letria. A revisão de texto é de Mário Azevedo. A paginação, impressão e acabamentos da responsabilidade da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.




Inaugurada em 2017, a iniciativa «Arte em São Bento» pretende valorizar obras de arte contemporânea portuguesa, entre pintura, fotografia e escultura, e promover a proximidade dos cidadãos aos centros de soberania e decisão, abrindo as portas da Residência Oficial a visitas públicas.

Arte em São Bento 2017-2019, é o catálogo das três primeiras exposições de arte contemporânea portuguesa que estiveram patentes na Residência Oficial do Primeiro Ministro, no Palacete de São Bento, em Lisboa.

A presente edição bilingue (português/inglês), além de ilustrar este trabalho, é complementada com textos de especialistas que revelam as opções adotadas. Entre eles: José Manuel dos Santos, Suzanne Cotter, João Pinharanda e Isabel Carlos.

O Primeiro Ministro, António Costa, inaugura o catálogo com o texto «Um Novo Rosto do País», que pode ler aqui.

A Residência Oficial não é a casa particular do Primeiro-Ministro. É um local de trabalho e de representação do País.
Por isso, deve ser, tanto quanto possível, um espaço aberto aos cidadãos e uma montra de Portugal e dos portugueses.
Iniciada a tradição de abrir a Residência na celebração do 25 de Abril, nas últimas duas décadas, os jardins de São Bento acolheram obras de arte pública produzidas especificamente para a ocasião, oferecendo companhia e contemporaneidade à estatuária de Leopoldo de Almeida. Obras de João Cutileiro e de José Pedro Croft foram ocupando o seu lugar nos jardins da Residência Oficial, a que se juntaram, nestes quatro anos, uma escultura generosamente oferecida por Vhils e um painel de azulejos da primeira mulher que aqui se expõe, Lourdes Castro.
Um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa permitiu-nos dar um passo em frente: abrir gratuitamente os jardins ao público todos os domingos, assegurando a autarquia a manutenção e limpeza dos mesmos.
Foi neste espírito de abertura à cidadania que surgiu a ideia da Arte em São Bento. Para além da representação política, aqui podemos ter igualmente a representação da criação cultural contemporânea, que é também um rosto do nosso país.
Como ideia puxa ideia, porque não propor uma experiência inédita? Porque não oferecer maior visibilidade e reconhecimento a coleções privadas, aos artistas, à produção artística mais atual, enfim, a todos os que contribuem para a dinâmica da arte contemporânea portuguesa?
Assim, definimos um critério e uma metodologia: convidar, todos os anos, uma coleção privada de fora de Lisboa a expor na Residência Oficial obras de artistas contemporâneos portugueses, cabendo aos colecionadores indicar os curadores da exposição. Começámos em 2017 com Serralves, continuámos em 2018 com António Cachola, e, em 2019, com Norlinda e José Lima. Porto, Elvas e São João da Madeira vieram até São Bento, com o desejo de que estas exposições incentivem os visitantes a ir à descoberta do muito que têm para mostrar as coleções e os territórios onde residem.
É claro que esta Residência não é um museu nem uma galeria. É um espaço de trabalho onde cada área tem uma funcionalidade específica, pelo que a seleção das obras foi um desafio que os curadores Suzanne Cotter, João Pinharanda e Isabel Carlos enfrentaram com imaginação, recriando sempre os distintos espaços em que trabalharam.
Este catálogo das três primeiras exposições ilustra o seu trabalho, mas constitui também um compromisso de continuidade nesta renovada legislatura. E também uma vontade de se alargar a outros domínios — ao design, à indústria, à gastronomia, às muitas oportunidades que a criação contemporânea nos oferece.
Agradeço aos artistas, colecionadores e curadores que tornaram possíveis estas exposições, e aos cidadãos que fazem sua esta Residência, que é mesmo de todos os portugueses.






Os Anos da Vida de Ricardo Reis (1887-1936), de Nuno Amado, é o mais recente título a juntar-se à coleção de ensaios «Pessoana», uma coleção dedicada ao poeta dos heterónimos, Fernando Pessoa.

Lê-se na Nota Prévia:

Este livro é uma versão condensada da tese de doutoramento que apresentei ao Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, orientada pelo professor António M. Feijó e pelo professor Miguel Tamen, e que defendi em novembro de 2016. Além do argumento central, que obviamente se mantém, não sofreu especial modificação nenhum dos argumentos indispensáveis à progressiva edificação dele. Nenhum emagrecimento se faz, contudo, sem sacrifícios. De fora desta versão ficaram alguns argumentos laterais cuja ausência não fere de morte o argumento central, várias explicações mais demoradas, às vezes de muitas páginas, e várias ideias de que me servira tanto para robustecer os argumentos mais relevantes quanto para mostrar como tudo na obra de Pessoa parece confluir para o tópico em análise, diversas preocupações com o contexto e a tradição poética de que Pessoa é devedor e muitas notas de rodapé de natureza explicativa e tamanho exagerado. A minha expectativa é a de que o produto final, mais económico e elegante, compense a perda fatal de todas essas gorduras queimadas.

Em 4 capítulos (A Formiga e a Cigarra, Um Epicurismo Triste , Corpo e Alma e Um Deus da sua Própria Idolatria), Nuno Amado procura neste ensaio justificar a intuição de que não é possível biografar Ricardo Reis sem que se biografe em simultâneo o seu mestre Alberto Caeiro. O argumento decisivo, em torno do qual essa justificação vai sendo edificada, é o de que Reis e Caeiro correspondem ao lado de fora e ao lado de dentro, respetivamente, de uma mesma criatura dual, assim cindida em gente heterónima.

Entendido como um prolongamento da criatura una que até aí se chamava Alberto Caeiro, de quem, aliás, procede por partenogénese, Reis é no fundo aquilo que Caeiro passa a ser depois de reparar na fronteira entre o mundo exterior ao alcance dos olhos e a interioridade que se oculta por detrás deles. Não obstante a pouca participação de Álvaro de Campos nesta metamorfose, limitada ao privilégio de comentá-la de perto, o drama em gente de Pessoa é assim encarado nestas páginas como uma tentativa insólita de redescrever, usando poetas em vez de frases, a vexata quaestio da aquisição da autoconsciência.

Desde que a obra de Ricardo Reis principiou a suscitar a curiosidade, têm insistido os mais diversos críticos em observar nela uma ascendência horaciana explícita. Georg Rudolf Lind, por exemplo, lembra que «a primeira associação de Sá-Carneiro ao ler as odes de Reis é Horácio» (Lind, 1981: 132), acrescentando depois que essa pista não foi descurada pelos críticos posteriores. Um desses críticos, Mário Sacramento, refere-se ao heterónimo como «epígono horaciano» (Sacramento, 1985: 66); outro, Ángel Crespo, considera que foi precisamente o epicurismo de Horácio que serviu de modelo ao de Reis (Crespo, 1990: 190); outro ainda, José Augusto Seabra, afirma haver mesmo «na sua poesia um duplo ‘fingimento’ (o de Pessoa-Reis e o de Reis-Horácio)» (Seabra, 1988: 170); Silva Bélkior, um dos mais atentos às relações entre os dois poetas, sustenta que «foi Horácio o mestre e modelo de Pessoa-Reis» (Bélkior, 1982: 7); e António Pina Coelho assevera que partilham «a filosofia da vida» e «talvez um pouco o ritmo íntimo» (Coelho, 1971: 67). Antes de qualquer um deles, porém, já Jacinto do Prado Coelho, porventura o mais influente de todos, advertira para a admirável evidência de que Ricardo Reis, um «poeta derivado» que executa um determinado «horacianismo intencional» (Coelho, 1980: 40), «acusa a influência imediata de Horácio» (Coelho, 1980: 38). De um modo geral, portanto, a crítica pessoana tem consentido em não duvidar desta magnífica genealogia: sem exceções dignas de destaque, tem sido tolerada a tese de que Ricardo Reis, nascido para saciar os apetites clássicos de Fernando Pessoa, mais não foi do que um epígono de Horácio, encarregado de aportuguesar o que o mestre deixara em latim sem, porém, lhe amolecer o arcaísmo. in Os Anos da Vida de Ricardo Reis (1887-1936), pág. 29



O Livro Branco da Melancolia, o mais recente título da coleção «Plural» é uma antologia que reúne, propositadamente de forma continua e irreferencial, os mais significativos poemas de José Jorge Letria, poeta, ficcionista e jornalista. Conta também com um prefácio de autoria de Yvette K. Centeno.

Saiba mais detalhes sobre esta obra na nossa loja online. Aqui.

José Jorge Letria escolhe, para este conjunto de poemas, um título bem sedutor, e ao mesmo tempo intrigante. Uma palavra como Melancolia carrega um forte peso, na tradição cultural, filosófica, artística.
Do tratado de Robert Burton, Anatomia da Melancolia, à célebre gravura de Dürer, passando pelas doutrinas da nigredo alquímica, o negro da alma que anuncia um caminho que levará à sublimação das pulsões mais primitivas do inconsciente, muito nos é pedido para chegar ao entendimento da intenção do autor. Que o Livro seja Branco pode ser um indício, pois é do negro ao branco que o processo de transformação se dará.
Yvette K. Centeno in Prefácio


A PRIMAVERA É SEMPRE UMA PROMESSA

O outono dorme sobre as folhas secas
tricotando o agasalho do meu frio.
fundindo o chumbo entardecido
da tristeza que me fere os dias.
E eu onde estou? Que corpo é este
que envelhece à medida que eu me evado
dos casulos onde a noite se faz lume
para acordar nos olhos os medos mais antigos?
Amanhã pode ser que voltes,
desnudada e grave, para governo
das matérias mais ardentes,
dos assuntos da loucura.
As crianças batem-me à porta,
fugindo sem saberem de quê,
talvez das sombras perfiladas contra os muros,
talvez das palavras desnudadas pelo grito.
As crianças sabem sempre ao que vêm,
querem saber de mim e das histórias
que prometi contar-lhes. Temos a mesma idade.
Com uma diferença: a minha é outonal
e rasgada pela violência de outros dias;
a delas é alada e pura como a toutinegra
que pousa no ramo quebrado da paisagem
para lembrar que a primavera é sempre uma promessa.

O Livro Branco da Melancolia, pág.339







2020 afigura-se mais um ano desafiante para a Imprensa Nacional e a poesia continuará a ser uma aposta forte da editora pública portuguesa.

Em 2020 a Imprensa Nacional continuará a acolher os poetas na coleção «Plural». Serão publicados nesta coleção: Guardar a Cidade e 0s Livros Porventura de Antonio Cicero, O Último Poeta Romano, de Paulo Teixeira, Toda Poesia, de Paulo Leminski, e as obras poéticas de Salette Tavares e de Natércia Freire.

Também a Poesia, de Sá de Miranda, sairá este ano, na coleção «Clássicos». Quanto à coleção dedicada a Fernando Pessoa, a «Pessoana», vai acolher os Poemas de Alberto Caeiro, numa edição de Ivo Castro.

A Imprensa Nacional continuará a divulgar, ao longo deste ano, os pensamentos críticos dos mais destacados ensaístas na coleção «Olhares». Para este ano espera-se a A Enxada e a Lança, de Alberto da Costa e Silva, e Viagens com um Mapa em Branco, de Juan Gabriel Vásquez.

Ainda no domínio dos ensaios, a coleção «Estudos de Religião», feita em parceria com o Centro de Estudos da História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, recebe em 2020 os títulos Génese e Institucionalização de uma Experiência Eremítica, de João Luís Fontes, Teologia e Poesia em Carlos Drummond de Andrade, de Alex Villas Boas, e Religião, Território e Identidade, coordenado por Alfredo Teixeira.

No domínio da filosofia há uma novidade há muito aguardada: a Imprensa Nacional reedita esta ano uma das grandes obras-primas da literatura ocidental, Confissões de Santo Agostinho, em versão bilingue (português/latim), título que se encontra há muito esgotado.

Em 2020 a editora pública continuará a restaurar minuciosamente as «oficinas de trabalho» dos autores maiores da literatura portuguesa, guiados pelo olhar crítico e atento dos nossos maiores especialistas que reconstroem verdadeiras «catedrais» nas coleções de «Edições Críticas». Este ano esperam-se Frei Luís de Sousa na «Edição Crítica de Almeida Garrett»; Eusébio Macário. A Corja (num só volume) na «Edição Crítica de Camilo Castelo Branco» e Philidor e A Relíquia na «Edição Crítica de Eça de Queirós».

O Teatro Completo de Natália Correia, em dois volumes, entrará este ano para a coleção «Biblioteca de Autores Portugueses».

Também as Crónicas que Nuno Brederode Santos publicou no Diário de Noticias se juntam ao catálogo da editora, numa organização da responsabilidade de Maria do Céu Guerra e Maria Emília Brederode Santos.

A coleção dedicada aos grandes autores italianos (clássicos e contemporâneos), a «Itálica», vai receber em 2020 um volume dedicado ao Teatro de Pirandello, onde serão publicadas algumas traduções inéditas para português deste dramaturgo italiano. A coordenação do volume será de Jorge Silva Melo. A «Itálica» recebe ainda a poesia completa de Giuseppe Ungaretti, Vida de Um Homem, que conheceu a sua tradução para o português pela mão de Vasco Gato.

De Itália chega ainda um título importante para a Imprensa Nacional, pela lavra de Anna Dolfi: O Essencial sobre Antonio Tabucchi. A mesma coleção acolherá também O Essencial sobre Ruben A., no ano em que se assinala o centenário de nascimento deste escritor.

Do Brasil chega um outro projeto importante e notável. Conjuntamente com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, a Imprensa Nacional publica em 2020, a publicação do Dicionário de Machado de Assis.

Ainda no que diz respeito a dicionários, o investigador Daniel Pires vai trazer-nos um dicionário dedicado a uma das mais complexas e notáveis figuras do Iluminismo português: Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Em 2020, a Imprensa Nacional continua a apostar nos designers portugueses na «Coleção D», coordenada por Jorge Silva. Este ano sairá o volume dedicado ao trabalho de Cristina Reis.

As objetivas da editora pública continuam bem focadas nos fotógrafos nacionais. José Manuel Rodrigues (com apresentação de Rui Prata) é o nome que se segue na «Série Ph».

A pensar nos mais novos a coleção «Grandes Vidas Portuguesas» vai receber mais quatro biografias: Carolina Beatriz Ângelo, Amália Rodrigues, Sidónio Pais e Mário Soares, estes dois numa série, dentro da coleção, dedicada aos Presidentes e feita em parceria com o Museu da Presidência da República. Já a coleção infantojuvenil do Museu Casa da Moeda recebe este ano O Golfinho. Recorde-se que a Imprensa Nacional – Casa da Moeda associa-se ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, sendo que parte das receitas das vendas deste livro (bem como das moedas associadas) contribuem diretamente para a proteção da espécie.

Ainda a pensar no ambiente, e no âmbito da Lisboa Capital Verde 2020, a Imprensa Nacional associa-se à Câmara Municipal de Lisboa inaugurando a coleção «Botânica de Portugal». Estão previstos 7 títulos e o primeiro a sair do prelo será: Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental.

Distribuídas por diversas coleções que vão da poesia às edições críticas, passando pelas obras completas, pelo design, pela fotografia, pela história, filosofia, infantojuvenil, as edições da Imprensa Nacional continuarão em 2020 a ir ao encontro da sua missão primordial: publicar obras essenciais da cultura nacional e universal e preservar, promover e ampliar o património bibliográfico da língua portuguesa.

E no sentido de chegar a mais gente e de captar novos públicos, a Imprensa Nacional fará em 2020 o maior esforço da sua história no caminho da desmaterialização e de uma oferta diferenciada de conteúdos.

A saber: contará com cerca de 40 edições que incluem livros eletrónicos, terá 11 edições que incluem disponibilização gratuita (após uma primeira edição em papel ou em simultâneo). A Imprensa Nacional iniciará também uma coleção de audiolivros de autores clássicos portugueses com disponibilização gratuita, prevendo-se dois a três audiobooks por ano. Em 2020 a Imprensa Nacional estreia um programa semanal na RTP/ Antena 2 sobre «autores essenciais», tendo por base os livros da coleção «O Essencial Sobre». Os programas poderão ser ouvidos em direto e, posteriormente, em podcast.

Por fim, a Imprensa Nacional vai inaugurar o seu sítio na internet, em 2020, com conteúdos próprios e exclusivos totalmente orientados para a literatura e cultura portuguesas, bem como para a história desta instituição.




















É já esta 6.º feira, dia 17 de janeiro, pelas 17h30, que serão apresentadas as novidades editoriais da Imprensa Nacional, a editora pública portuguesa, para o ano 2020.

Além de novos títulos e novas coleções são esperadas outras novidades.

A apresentação vai decorrer, como vem sendo habitual, na bonita Biblioteca da Imprensa Nacional, no nr.º 135 da Rua da Escola Politécnica, em Lisboa.

Depois da apresentação dos principais eixos programáticos da editora,  por Duarte Azinheira, seguir-se-à às 19h00 um concerto num cenário único: o das oficinas gráficas da Imprensa Nacional.

Sob direção do maestro Pedro Amaral, a Orquestra Metropolitana tocará a Sinfonia n.º 4, em Mi Menor, opus 98 de Johannes Brahms.

Fica o convite feito.