Tenho muita sorte. Com o fecho das Quasi, chegou Lisboa. E, com ela, o Tejo.
Estar sentado no escritório e poder olhar o Mar da Palha é quase perfeito. E só tem o quase (a palavra que me tem perseguido a vida inteira), porque, tão a montante, os cargueiros e os cacilheiros não navegam. Há dias em que pego no carro e faço a Cintura do Porto de Lisboa só para poder ver os cargueiros no Tejo. Não conheço imagem mais bela.
Os cacilheiros, esses, já são outros. Posso tentar a sorte, mais junto a Algés, mas no Terreiro do Paço ou no Cais do Sodré já se não vêem os velhos barcos laranja. Eu sei que, agora, o que desapareceu de estética apareceu em conforto. Mas escrever «catamarã no Tejo» é uma expressão que me torce. Não consigo. São cacilheiros para o século XXI, como já ouvi dizer. Mas eu tenho uma alma conservadora, quero lá saber do século XXI.

Por isso, na secretária está colocado, junto com meia dúzia de livros que escrevi e editei, com o do meu pai e com o Mortality do Hitchens, só mais um livro: O Rio Triste de Fernando Namora. A edição é a primeira – o que não quer dizer que seja rara, foram 5.500 exemplares de tiragem em 1982. É da Bertrand, no layout com que se encontram nos alfarrábios a maior parte dos livros de Namora. Era do meu pai, que a guardava no meio da sua biblioteca muito Círculo de Leitores, como tantos professores na província há 40 anos – mas, tão importante como isto, tem um cacilheiro na capa.

Li uma vez o livro nesta edição. Quando o quis reler, não o querendo estragar, comprei a nova edição da Caminho, cuja colecção o José Manuel Mendes tem promovido como pode e como não pode. Falta o cacilheiro mas tem o desenho do Rui Garrido e um papel equilibrado com a capa em plástico mate. É um livro que apetece ler, de tão bem feito. No entanto, surpreendem-me sempre as palavras de Mourão-Ferreira, no prefácio: se era para ter reservas facilmente confessáveis, mais valia não as ter confessado. Não percebo porque terá o editor da Europa-América decidido incluí-las na edição de 1992. Não que o romance seja um primor – Namora nunca foi primoroso, como sabemos – mas porque me custa a reserva quando um prefácio deve ser sem reservas.

Namora foi, antes de tudo o que se tornou, um poeta. Primeiro livro do Novo Cancioneiro, muito celebrado sarcasticamente por Mário Cesariny pela sua «Cassilda». Diz-se que foi um escritor sobrevalorizado no seu tempo para aquilo que o tempo fez dele agora. Talvez. Não sei. Não vivi o tempo dele, pelo que me é difícil comparar. Sei que agora é com dificuldade que se edita – 500 exemplares, em vez dos 5.500 da primeira edição (e mais umas quatro ou cinco entretanto) – e não o acho merecedor desse ostracismo. Então como poeta menos ainda. Não o acho o creme do creme (sem estrangeirismo, por favor, que aqui fala-se de cacilheiros e não catamarãs), mas acho-o um poeta interessante, que tem o seu lugar no neo-realismo português. Borges dizia (ou assim me lembro de ler ou que mo tenham dito) que todo o poeta medíocre tem um poema bom. Eu acho que só os poetas bons conseguem um verso que se salva. E o “Fazer das coisas fracas um poema” é um grande verso, escrito que foi em 1939. E quanto a Cassilda, que venha olhar o Tejo e o cacilheiro antigo do rio mais triste. E que, com isso, possa olhar também a gaivota que o acompanha.

O Rio Triste de Fernando Namora
A primeira edição, com uma tiragem de 5.500 exemplares, foi publicada em Outubro de 1982, com capa de José Cândido, nas oficinas gráficas da Livraria Bertrand, que o editou. A última (a décima primeira, depois de sete na Bertrand, duas no Círculo de Leitores e uma na Europa-América), com
uma tiragem de 500 exemplares, foi impressa na Multitipo para a Caminho, com prefácio de David Mourão-Ferreira e posfácio de Fernando Batista e sobre a direcção de José Manuel Mendes, em Dezembro de 2016.


Ana Sousa Dias – Por que aceitou fazer parte desta coleção?
Paulo Nozolino – Achei que era um dever cívico. É a Imprensa Nacional que imprime os meus passaportes, e o passaporte foi o que me permitiu viajar durante anos. Sem ele não teria feito as fotografias deste livro. E era um dever didático, pois finalmente há uma coleção dedicada só à fotografia e vendida a um preço módico – 19 euros. É o meu livro que mais fotografias tem.
Ler mais... aqui e aqui.
In entrevista a Ana Sousa Dias
Diário de Notícias
19 de maio de 2018

Sérgio Mah, que escreve o texto que enquadra o trabalho de Nozolino, sabe desse «peso inelutável» a que chama imaginação trágica. E sabe-o de várias maneiras. Na forma como coloca a obra de Paulo Nozolino na esteira da Antiguidade grega. No modo como lhe atribui «uma visão inquieta e dramática do mundo». E, sobretudo, na escolha desta frase de Céline para uma das duas epígrafes do texto crítico que inicia o livro: «C’est que je ne connaissais pas encore les hommes. Je ne croyais plus jamais à ce qu’ils disent, à ce qu’ils pensent. C’est des hommes et d’eux seulement qu’il faut avoir peur, toujours.»
Ler mais aqui... e aqui.
Cristina Margato
Expresso / E / «Culturas»
19 de maio de 2018

Um modo fotográfico que intensifica o caráter de uma obra que, desde as imagens primordiais, revela «traços estéticos», e que não são alheias as «opções técnicas e formais», que o fotógrafo manteve ao correr do tempo. É o caso, como faz notar o ensaísta [Sérgio Mah], do recurso a câmaras analógicas de 35 mm e da escolha de imagens «escuras e contrastadas», aquilo a que chama «uma dramaturgia visual em torno do claro-escuro». Ler mais...
Maria Leonor Nunes
Jornal de Letras
9 a 22 de maio de 2018

(...) Paulo Nozolino (...) encontrou um mocho de pequenas fotografias quadradas. Documentavam uma viagem à Grécia em 1972, na companhia dos pais e de uma avó. Ao passá-las reparou que uma delas tinha um escrito por trás, feito com a letra da mãe: «Esta imagem foi feita pelo Paulo.» (...) Foi um momento de «revelação» para o artista, que o obrigou a corrigir aquela que apresentava como a sua primeira fotografia (...). Começar com a primeira imagem que esteve durante décadas diluída numa autoria familiar (pediu a máquina ao pai para a tirar) foi uma opção deliberada e a favor da organização cronológica com que foi concebido o segundo volume da coleção Ph (...). Ler mais...
Sérgio B. Gomes
Público / «Cultura»
8 de maio de 2018

«No caso de Nozolino, a seleção das imagens foi feita pelo próprio e por Sérgio Mah», explica Cláudio Garrudo, diretor editorial da coleção. Ler mais...
Ágata Xavier
Sábado / Artes Plásticas
3 de maio de 2018

Há uma mnemónica visual em Ph.02: um olho ciclíopico sobrevivente ao varrimento da luz na página 30 (Lisboa, 1979), um terrível olhar sem vida a emergir de um corpo tapado por lençóis na página 50 (Berlin, 1984), o olhar direto de um adolescente, único a fitar-nos na vintena de rostos da quadrícula policiaria (New York, 2007), os olhos inocente do menino pintado na página 100 (Göttingen, 2005), até chegar ao autorretrato de um jovem Nozolino ao espelho – e fecha-se o círculo do volume. Ler mais...
Sílvia Souto Cunha
Visão / Livros e Discos
10 de maio de 2018




Ele poderia ter sido um James Bond. Melhor: ele foi um James Bond. Só que, em vez de moçoilas envolventes e fugas inopinadas, ele andava munido de um papel, uma caneta e talento.

Kapuściński era polaco. Nasceu em guerra, cresceu na ditadura e fugiu não para a paz mas para outras guerras e ditaduras. Foi, durante décadas, repórter para a agência de notícias polaca. E, dizia ele, cobriu dezenas de revoluções que lhe valeram algumas condenações à morte – comutadas, bem de vê, que morreu de «morte natural» (não que saiba eu o que é morrer de «morte artificial») há uns anos. Pouco tempo antes de ganhar o Nobel da literatura, digo eu. A vitória de Svetlana Alexievich foi a de Kapuściński. E só não foi dele porque tinha morrido, sabe-se isso.

«Mas um repórter a ganhar o Nobel?», perguntar-se-ia. O problema – ou a solução – é que ele não era «só» um repórter. Era um escritor de mão-cheia. Um ficcionista como poucos. Poderemos intuir que isso possa ter contaminado as reportagens. Concedo. Mas em tempos de factos alternativos por razões políticas, o quanto desejo eu que alguém me tenha oferecido factos alternativos por razões literárias…

Em Portugal, Kapuściński foi (mal) publicado pela Campo das Letras. O Império, Ébano, Mais Um Dia de Vida – Angola, 1975, Heranças com Heródoto. E O Imperador, que é o meu favorito. Um livro que nos traz um retrato claro e nebuloso (como só a literatura consegue) de Selassie, imperador e ditador etíope.

Era deste último que eu ia comprar os direitos para publicação portuguesa, tentando dar-lhe na Casa dos Ceifeiros (uma chancela onde edito os «meus» livros), uma edição que a Campo das Letras nunca deu.

Pois bem, a Livros do Brasil resolveu ir buscar o Ébano e, com ele, ficou com os direitos de opção – assim como os jogadores de futebol – para os restantes. E eu imagino – com a edição que tenho em mãos deste – o que será O Imperador em breve. Não gosto, claro. Detesto, até. Que não o possa publicar na minha Casa. Porque de resto, só posso ficar feliz: a edição é lindíssima, cuidada, atenta. Como nunca teve o senhor Ryszard em Portugal, o que só vem possibilitar mais leitores.

Obrigado, Manuel Alberto Valente e São José Sousa, por me terem tirado a possibilidade de o ter na minha Casa para o ter em minha casa tão bem feito.

  • Ébano de Ryszard Kapuściński, com tradução de Maria Joana Guimarães.
    Publicado em setembro de 2017 pela Livros do Brasil, depois de impresso no Bloco Gráfico da Porto Editora.


Fotografia: imageBroker/Rex/Shutterstock

A Mauritshuis, na Haia – um dos mais importantes museus holandeses, que acolhe grandes tesouros nacionais como a famosa Rapariga do Brinco de Pérola de Vermeer ou O Pintassilgo de Carel Fabritius – retirou recentemente do átrio de entrada o busto seu fundador, na sequência da recente reorganização da coleção

O conde Johan Maurits van Nassau-Siegen foi governador da colónia holandesa no Brasil entre 1636 e 1644, e o museu tem em curso um grande projeto de investigação com a Universidade de Leiden sobre a sua presença no Brasil e a sua ligação à história da escravatura. O objetivo da remodelação é, pois, permitir que a Mauritshuis passe a refletir a preocupação crescente da sociedade relativamente à história da colonização e ao comércio de escravos. O museu pretende assim atualizar a visão sobre o passado, partilhando com os visitantes todos os seus aspetos, tanto os positivos com os negativos.

Quanto ao busto de Maurits, que se tratava apenas de uma cópia em gesso, a direção entendeu que ele deixava de fazer sentido no local local onde se encontrava, já que o seu original em pedra passou a integrar o novo núcleo dedicado ao fundador.

Politicamente, contudo, a decisão desencadeou várias reações adversas, designadamente da parte do primeiro-ministro Mark Rutte, que alertou para o perigo de julgar o passado distante apenas à luz do dias de hoje.

As mudanças de narrativa, a reabilitação de períodos menos abonatórios da história de cada país, a revisão de perspetivas, a abordagem moral e ética do passado, ou a forma «correta» de olhar a História estão longe de ser questões consensuais. A discussão sobre o que são decisões «politicamente corretas» ou o que pode ser considerado simples «branqueamento» civilizacional está hoje no centro do debate social e político, e irá prolongar-se provavelmente durante muito tempo. Mas é também um problema que se coloca à historiografia, cabendo aos investigadores o dever de lhe conferir o indispensável caráter científico e soluções mais duradouras.

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Há livros que perdemos e ganhamos simultaneamente. Este enche-me de pena e felicidade.

Conheci a poesia de António Reis (e a de Santos Barros, já agora) quando fiz, com o Rui Lage, a antologia Poemas Portugueses. O ano talvez fosse o de 2006 ou 2007. Estes dois poetas encheram-me as medidas. E cheguei a falar com a herdeira do Santos Barros para o fazer nas Quasi. Infelizmente, o fecho da editora impossibilitou este desejo (entre tantos outros...). Na Babel, não consegui fazer muito. Era outra a minha função mas, ainda assim, editei o Ferreira Gullar, o Paulo Henriques Britto, o Mourão-Ferreira, entre outros. Quando criei a Glaciar, a ideia lírica de apostar na poesia teve de ser substituída pela realidade. Mas a Imprensa Nacional, pouco tempo depois, possibilitou-me de uma forma única continuar a fazer o que tanto gosto, convidando-me para dirigir a coleção Plural. E ainda continua.

António Reis estava previsto para 2018 ou 2019. Felizmente, o conceito de edição supletiva da Imprensa Nacional é aqui bem exemplificado: antes, a edição comercial funcionou e a Imprensa não foi necessária. Isso deixa-me feliz. Como me deixa feliz ver o livro a ser editado. Só fico triste por não ter sido eu a editá-lo. Foi o Pedro Mexia. Pelo menos, foi editado pela mão de um amigo.

A poesia do António Reis é a poesia do quotidiano por excelência. Notem a frase, que costuma ser adágio sem pensar no que se diz: «por excelência». Não só como exemplo final, mas também por ser excelente. É uma poesia feita de pequenas pulsões, frases curtas que nos fazem imaginar cada verso, entre as montras, as fábricas, os passeios e o Sol: «Poemas quotidianos // como o Sol / como a noite // como a vontade de comer / e o sono // como as preocupações / e o amor // porque saio á rua / e trabalho / diàriamente». A arte poética de António Reis toda num só pequeno e grande poema.

Mas não serei eu a analisá-la. Para tal, leia-se o excelente prefácio de Fernando J. B. Martinho ou, para conhecermos melhor o autor na sua outra e mais conhecida ocupação de realizador, o posfácio de Joaquim Sapinho. Se quisermos saber ainda mais, procurem a primeira edição desta «obra completa» (100 poemas, tão-só), editada em 1967 e introduzida por Eduardo Prado Coelho. Mas se quiserem fruir em cada verso, há esta edição da Tinta-da-China, maravilhosa, como são as edições da Tinta-da-China. Note-se o cuidado: o «à» em «diàriamente»; a foto do autor na última página. São pormenores, sim. Mas é com eles que se constroem livros perfeitos.

António Reis está publicado. O Santos Barros sai este ano na Imprensa Nacional, organizado por mim. Com uma enorme quantidade de inéditos e a reedição de todos os seus livros. E um prefácio de António Lobo Antunes. Digo-o porque acabei por ser eu, com os Poemas Portugueses, a apresentar a poesia de António Reis a este outro António. Será um prazer enorme oferecer-lhe este livro.
Obrigado, Pedro. E raios te partam, claro.

Poemas Quotidianos de António Reis, com prefácio de Fernando J. B. Martinho e posfácio de Joaquim Sapinho.
Publicado em junho de 2017 pela Tinta-da-China, depois de impresso nas oficinas gráficas da Rainho & Neves.


 

por Jorge Reis-Sá

São 219 títulos. Vamos escrever por extenso, que é para se perceber melhor: são duzentos e dezanove títulos. É este o número que nos enche as medidas: duzentos e dezanove títulos editados na coleção Ciência Aberta da Gradiva.

Quando eu era miúdo, Famalicão ficava bem mais longe do mundo do que agora fica o Kiribati. Era perto do Porto, sim, mas só se contarmos a distância em quilómetros. Porque obrigava a fazer a Estrada Nacional 14, a passar a Trofa, a passar a Maia, a passar uma entrada na cidade que se fazia por curvas e contracurvas que nunca entendi verdadeiramente (mas de que, paradoxalmente, tenho agora saudades). Por isso, em Famalicão só havia uma «livraria», onde a D. Natércia nos mostrava os livros à distância, atrás do balcão — querida e saudosa D. Natércia. O único local onde ler, para além das visitas trimestrais do Sr. Granja do Círculo de Leitores? A biblioteca municipal.

Foi lá que comecei a ler Carl Sagan, Stephen Jay Gould, H. Reeves, Yves Coppens, François Jacob, Stephen Hawking e até, valha-me Deus, Steven Weinberg num livro chamado Os Três Primeiros Minutos — este último, que me ensinou como é bom aprender para, depois, compreender (embora, confesso, nem com a frequência no curso de Astronomia ou a licenciatura em Biologia já o tenha compreendido). Qual o denominador comum de todos estes livros? A Gradiva, o trabalho de Guilherme Valente, de Luís Alves e, soube anos depois, de Maria do Rosário Pedreira.

Só consigo imaginar quantos Jorges foram inundados pela cultura científica por causa desta coleção. Quantos miúdos perdidos numa Famalicão do país souberam que fazia sentido queimar formigas num tubo de ensaio porque havia quem escrevia sobre o facto de as galinhas poderem ter dentes. Quantos jovens cientistas aprenderam a curiosidade nos livros que a Gradiva editou.

O Jorginho, como me chamavam quando pequeno, só pode pedir ao Jorge Reis-Sá para agradecer. «Agradeça, por favor, sim?» Bem mandado, agradeço. Por que sei que o Reis-Sá só é cientista — mesmo que escritor ou editor, mas nunca se deixa de ver o mundo em formato excel — porque a Gradiva ofereceu ao Jorginho livros e livros e livros. Duzentos e dezanove, contam-se até hoje.

Obrigado à melhor editora de ciência em Portugal. Obrigado Guilherme Valente, Luís Alves, Maria do Rosário Pedreira e, a partir do número 201, Carlos Fiolhais (a quem se deveria agradecer mais ainda, pelo serviço que tem feito à ciência portuguesa em várias formas e feitios). Obrigado por me explicarem o «cosmos», como o panda tem polegares esquisitos, como a flatland é maravilhosa e como um pouco mais de azul faz sempre falta, principalmente quando se decompõe o arco-íris. Mesmo que vá morrer sem perceber bem o que aconteceu nos «três primeiros minutos». Mas, convenhamos, compreender tudo vai contra o que mais se pede à ciência: a curiosidade.

Um Universo Vindo do Nada de Lawrence M. Krauss, com tradução a partir do original inglês de Florbela Marques, revisão científica de Carlos Fiolhais e prefácio de Richard Dawkins.
Publicado em Março de 2017 pela Gradiva, depois de impresso nas oficinas gráficas da Multitipo.

por Jorge Reis-Sá


Não tenho a pretensão de pensar a edição, de a historiar, de acrescentar muito a um dicionário que possa fazer valer aos pós-graduados em «estudos editoriais» ou afins. Mas gostaria de poder deixar algumas menções para a espuma dos dias. Há o risco de a edição ser pensada apenas pelos pontos evidentes e esquecermos aqueles que, quase sub-repticiamente, tanto fizeram por ela.

O caso que aqui trago é disso evidência. Alguém deve um dia dar a importância devida ao trabalho da Guilhermina Gomes à frente do Círculo de Leitores e da Temas e Debates. O Círculo era uma instituição. Assim, com a força que só o substantivo instituto dá. Porque foi, em tempos em que o país se subdesenvolvia e apenas Lisboa e Porto subdesenvolviam menos, a livraria de todos nós. Digo nós porque tenho quarenta anos mas ainda fui dos que ia à Fontenova ver um livro e ele estava atrás do balcão da D. Natércia. Pelo que fui dos que recebia a revista e a folheava abismado com a beleza das capas, dos títulos, das ideias, das coleções. Uma coisa única aquela visita do senhor Granja, a apontar os pedidos do meu pai e, a partir de certa altura, a somar-lhe os meus. Foi no Círculo que li o meu primeiro livro para crescidos: O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Tinha 14 anos e uma vontade enorme de crescer junto com as páginas brancas do IOR de 70 gramas (ou seria de 80?). E foi nesse livro que senti que Saramago matou com demasiada rapidez o homem. (E esta frase dúbia diz muito se for o Homem também.) Demorou muito nos tempos que são só ficção porque não há registos — mesmo que ficcionados, já o sabemos — e depois nos últimos três anos a coisa fez-se em poucas páginas. Fiquei triste. Porque queria saber mais da vida revelada e menos da vida oculta. Mas que sei eu hoje, depois de 25 anos e sem o ter relido? (Já tenho o que fazer nos próximos dias.)

Depois o Círculo acabou ou quase. E foi um fim que me deixou feliz, porque sinal de um desenvolvimento do país — com livrarias, fnacs e bertrands da vida. Mas Guilhermina Gomes continuou — e que bom e que bem. E a Tema e Debates ganhou a importância que o Círculo tinha, retirando Danieles Steeles e Stephenes Kings da equação. Fez-se assim uma das melhores chancelas de não-ficção. Os nomes são tantos que seria fastidioso enumerar. Mas basta dizer Jared Diamond. Daniel E. Lieberman. James A. Robinson. António Damásio. Barbara Demick. Daniel C. Dennet. Jesse Bering. Ou Stephen Emmot, que tem um dos livros mais avassaladores alguma vez editados em Portugal: Dez Mil Milhões. Façam um favor a vocês mesmos e corram a lê-lo, por favor.

Ou Timothy Garton Ash, agora. Liberdade de Expressão. Uma obra monumental, sem os excessos — embora nada seja excessivo na liberdade de expressão, mas isso seria outra crónica — de Mick Hume, e com tudo — tudo — o que importa saber sobre um tema tão importante. Eu sei, é o universo, é a física, a consciência, as nações, a sobrepopulação, a religião, o corpo humano, a civilização. Isto para indexar os temas a alguns dos autores citados. Mas sem a liberdade de expressão nada poderia ser lido. Nem debatido. Temas para debate são sempre bons — mesmo quando concordamos em discordar.



Liberdade de Expressão de Timothy Garton Ash, com tradução a partir do original inglês de Jorge Pereirinha Pires.
Publicado em fevereiro de 2017 pela Temas e Debates, depois de impresso nas oficinas gráficas da Porto Editora, na Maia.



por Jorge Reis-Sá

Deixo muitos livros a meio. Corrijo: deixo muitos livros no começo. Alguns — poucos, confesso — com uma vontade enorme de os dar para reciclagem, tal a desilusão.

(Comprei no Brasil há uns meses uma história na primeira pessoa de uma senhora que tinha desenvolvido um problema médico — não podia apanhar sol. Confinada a sua casa, pensei, «que grande livro se consegue escrever!». Errado: que grande livro se conseguiria ter escrito. Não digo qual é apenas porque já está no armazém). Deixo alguns a meio, também. Porque outros se meteram entretanto, porque percebi a dinâmica da coisa, porque já entendi para onde vai e não me apetece ir com ele. Almada lamentava-se de não poder ler os livros todos da biblioteca. Eu apenas lamento perder tempo com alguns.

Por isso mesmo, o melhor elogio que tenho para um livro é o verbo «continuar». Qualquer livro que me faça continuar é um bom livro. Que me leve até ao fim porque se juntou a minha fome no tema ou no estilo com a vontade das páginas me comerem os olhos e o sono.

Há umas semanas recebi da Guerra & Paz um que me permite esse verbo. Não falo dos objetos que o Manuel Fonseca faz, que são para ler enquanto se beberica uma «flauta» de champanhe, tal a sapiência com que os executa. Falo de Os Filhos dos Nazis, de Tania Crasnianski.

A literatura sobre a II Grande Guerra é mais do que muita. Almada também se lamentaria de não ter tempo para a ler toda. E muita dela lamentavelmente fraca. Porque escrita com intuitos meramente comerciais, juntando teorias esparsas em livros estranhos (Grey Wolf, por exemplo, que coloco na estante junto com O Homem que Mordeu o Cão) ou porque sem qualquer investigação que a sustente. Crasnianski, até à página 48, não faz nenhuns desses erros. E, tenho a certeza, depois da 48 também não. Mas, aí está, tenho de continuar. Com a felicidade de saber que tenho um bom livro para ler.

É a história do nome. A história do peso da História que cada um de nós carrega. Neste caso — tão duro — a daqueles que levam o nome de assassinos com eles. E, mais interessante, dando conta de como alguns deles (veja-se a filha de Himmler, por exemplo) abraçam ainda hoje o pai e as suas teorias. Sempre tive fascínio pela silenciosa — de tão superficial — «desnazificação» alemã. Tenho pena de não saber alemão para investigar para onde foram os quadros médios do regime que a ele sobreviveram. Este livro dá-me um pequeno relance desse projeto, somado ainda para mais com a questão filial, que tanto me agrada. Obrigado, Manuel, por o teres trazido para português.



Os Filhos dos Nazis de Tania Crasnianski
com tradução a partir do original francês de Nuno Costa Santos e Rui Lopo.

Publicado em novembro de 2016 pela Guerra & Paz,
depois de impresso nas oficinas gráficas da Publito, em Braga.


Montagem sobre ilustração de Óscar Rocha (iOnline)

Texto: Diogo Vaz Pinto

Rui Lage encerra com Estrada Nacional um ciclo poético que das paisagens rurais faz o túmulo doce de um certo país a que dissemos adeus.

O triunfo desta poesia está no golpe nos rins, mais do que no golpe de asa,  pelo modo como nos habitua, como os seus primeiros passos envenenam as expectativas que tivéssemos e as leva a enterrar, para não fazer de ânsias o seu caminho. Para que não lhe perguntem sempre se já chegámos, se é isto a poesia. Pode ser, logo vemos, mas há mais coisas neste mundo que merecem atenção. E mostrando que a coisa aqui se faz, um pouco como insistiu João Cabral de Melo Neto, que a música pode ficar calada, o silêncio também tem gradações, até ritmos, também faz o ouvido: «Eu vi que era possível escrever uma poesia áspera (...) uma poesia que não embalasse o leitor, uma que não fosse um carro a deslizar num pavimento de asfalto, aquela coisa lisa, mas que o leitor – que é carro – passasse em cima de uma rua mal calcetada, em que o carro fosse sacolejado a todo o momento. Uma poesia em que o leitor ao passar de uma palavra para a outra tivesse que pensar».


Pressente-se a morte por desgaste e desgosto de uma poesia que se deixou tolher rente a um registo biográfico, e condescente nisso. De novo emerge um enorme cansaço de toda a moleza que se dobra em sarcasmos. Há um desejo de mais que agressão, ultrapassagem face a uma realidade que cada vez mais embosca, apouca, garante que não há outra via.  

Ler o artigo completo aqui.


Disponivel nas lojas INCM:


https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=103030Rui Lage
Estrada Nacional
Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
2016












A jornalista Cláudia Lobo sobre o novo volume da coleção Grandes Vidas Portuguesas, uma coleção destinada ao público infantojuvenil, que vem reforçando anualmente a sua presença com excelentes textos e inspiradas ilustrações sobre a história de «Portugal de ontem, de hoje e de sempre, através das vidas que quem o fez grande».

O livro transporta-nos para a África do século XIX e conta-nos de forma apaixonada (e de um modo que os miúdos tudo percebem) não só as aventuras de Serpa Pinto mas também as de outros exploradores, nomeadamente Livingstone. Um prazer.
Cláudia Lobo
in VISÃO / Se7e
de 9 jan 2017


por Jorge Reis-Sá

Portugal tem tantas definições como poetas. E a poesia, em Portugal, recomenda-se. Desde O’Neill, aquele «problema que tenho comigo mesmo», a Sousa Braga que se sente com oitocentos anos mesmo que com vinte e dois na altura em que o escreveu. São tantos os que cantam Portugal e percebe-se porquê: somos os mais grandes do mundo.

Temos esta coisa estranha de sermos enormes mas de uma modéstia exasperante. Talvez seja pelos pés de barro — um retângulo tão pequeno não se deveria ter tornado tão mais maior. E nós crescemos mesmo muito. O Império físico pode ter desaparecido, mas ficou-se aquele que o continua — o da língua.

(Não falarei do acordo ortográfico — questão que também tenho comigo mesmo.)

O livro que a Imprensa Nacional deu à estampa há poucas semanas é um documento valiosíssimo desta maioridade. Somos a língua mais falada do hemisfério sul — mas como aprendemos com a Mafalda do Quino, a coisa está de pernas para o ar e o que interessa é o do norte. No entanto, mesmo aí, somos enormes. Porque nos espalhamos e miscigenamos tanto por este mundo que não há um pequeno burgo nesta Terra onde não se diga «obrigado». Ao ponto, como se sabe, de até no Japão o dizerem a partir do nosso.

É um livro valioso porque imodesto. Talvez seja altura de deixarmos de querer parecer pequenos e nos tornarmos arrogantes. Se todos os chineses saltarem ao mesmo tempo, o mundo estremece. Mas se todos os falantes de português se calarem, o mundo emudece. E eu não conheço maior estremecimento do que o silêncio.

Em boa hora apoiado pelo Instituto Camões, com um extenso prefácio do Ministro dos Negócios Estrangeiros, que patrocina a obra, uma edição para lá do Atlas de Marrocos: a edição do Atlas onde a serra que interessa é a da Estrela — a nossa.



Novo Atlas da Língua Portuguesa
Luís Antero Beto, Fernando Luís Machado, José Paulo Esperança
Edição bilingue, português/inglês de Outubro de 2016
publicada pela Imprensa Nacional–Casa da Moeda








10 personalidades elegeram «o livro de 2016» para o DN | Artes de 31 de dezembro.

Para Nuno Júdice e Teolinda Gersão, Manuel Teixeira Gomes «boémio, negociante, melómano, viajante, escritor, diplomata, Presidente da República» de José Alberto Quaresma, Estrada Nacional de Rui Lage e história do século vinte de José Gardeazabal estão entre os melhores.


Nuno Júdice elogia biografia de Teixeira Gomes.
O poeta e ficcionista Nuno Júdice elegeu uma biografia e dois livros de poesia. No primeiro caso, Biografia - Manuel Teixeira Gomes, de José Alberto Quaresma: «É o trabalho mais completo até agora feito sobre um dos nossos grandes novelistas da transição do século XIX para o XX, com um enquadramento contextual exaustivo para situar a personalidade de um homem que marcou a política internacional do país na primeira década da República, como embaixador em Londres, e a política nacional ao ser eleito presidente, em 1923. Compreende-se que um espírito cosmopolita e um esteta intransigente no seu bom gosto não tenha suportado a mediocridade lisboeta, os pequenos ataques vis, e sobretudo a inveja pela popularidade de que desfrutava.» Quanto à poesia: «Ainda se encontram alguns rari nantes no nosso mar poético: Estrada nacional, do Rui Lage, e um primeiro livro que já impõe o nome do autor: História do século vinte, de José Gardeazabal. Uma confirmação e um autor a seguir.



Montaigne escreveu uma obra monumental, em extensão e em profundidade, de que é quase impossível extrair o essencial em poucas páginas. Clara Rocha consegue esse tour de force num ensaio acessível a qualquer leitor, sem contudo ser mera «divulgação». Montaigne, complexo e diverso, é visível no seu esplendor. Quem é este homem, que dedica toda a vida a escrever um livro? Que sabe ele de si próprio, do mundo, do bem e do mal, da doença, da morte, de Deus, da humanidade, da existência? Que sabe ele da escrita? Procurando respostas, Montaigne encontra a forma do ensaio como género literário: proteico, omnívoro, e ao mesmo tempo exercício, tentativa, esboço, forma sem forma, em permanente evolução. Toda a escrita ensaística, mas também biográfica, memorialista e diarística, lhe serão doravante devedoras.



Ler a peça integral aqui.


por Cláudio Garrudo



 


Quando entrei na cadeia, o alquebrado velho queixava-se de dores do coração, e turvações de cabeça; parecia porém descuidado da morte. Frequentes vezes me disse esperava lhe anulassem no supremo tribunal o processo, para ele poder, ainda uma vez, falar aos jurados, e explicar-lhes, sem perigo de alguém, o que era em Portugal a moeda falsa.

Livro:
Camilo Castelo Branco
Memórias do Cárcere
Coleção Edição Crítica de Camilo Castelo Branco
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2016, pág. 85

© do texto: representantes dos autores e INCM; © das imagens: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016

 por Cláudio Garrudo








A literatura tem uma dimensão de mistério. Umas palavras tocam a banalidade. Outras afloram o sublime. Algumas abrem em si zonas de guerra. Outras erguem-se como documentos da beleza do mundo. Mas em todas existe esse momento em que a palavra não apenas diz, mas inventa, transforma, perturba, desarruma, imagina, rasga.

Livro: Eduardo Prado Coelho
A Poesia Ensina a Cair
Coleção Biblioteca Eduardo Prado Coelho
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2010, pág. 75

© Texto: representantes do autor e INCM; © Imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016


por Cláudio Garrudo








(…) o ritmo musical dos seus jogos gráficos tem o olhar aguçado do designer e as suas ilustrações uma profunda humanidade.


Livro: Jorge Silva
Luís Filipe de Abreu
Coleção D
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2016, pág. 5

© Texto: autor e INCM; © Imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016


por Jorge Reis-Sá

O meu filho Guilherme tem dez anos. Chegou a Lisboa aos três, percorrendo a A1 à procura do novo mundo. Ou então vinha com os pais e eles é que tentavam encontrar mundos novos.

E aqui logo se percebeu da meteorologia. Não há necessidade de camisolas interiores nem, mais importante, de ir para casa mal se saia da escola. O tempo, mesmo invernoso, convida sempre a um passeio. E o seu pai levava-o ao Chiado algumas vezes.

Foi lá que ele conheceu o senhor Fernando. Sentou-se com ele para a foto habitual. Noutra altura até levou a bandeira do Futebol Clube de Famalicão, o que em nada aumentou a confusão pessoana. Afinal, não se descobriu (ainda) o ideal clubístico do senhor Fernando, mas se for de três ou quatro clubes só entronca bem na heteronímia.

Ainda hoje, quando lá passa, cumprimenta o senhor Fernando. «Ficou tanto tempo à espera de ser servido, que se tornou pedra». Acho que não é bem pedra, mas para uma criança tudo é o que for. E acho que a Brasileira não deve achar piada a esta consideração, mas os melhores croissants são os da Benard. Tornado pedra, claro. Mas nunca imóvel.

O senhor Fernando continua a redescobrir-se. Mesmo coberto com bandeiras do Famalicão, há sempre quem o descubra. E o que algumas editoras têm feito com ele é de louvar e não pouco. A Tinta da China, com Jerónimo Pizarro a dirigir uma fabulosa coleção (que, pela primeira vez o digo, não tem correspondência no layout, demasiado soturno); a Relógio D’Água e a Assírio, claro; e a Imprensa-Nacional.

Esta com um cuidado gráfico que faria o senhor Fernando corar de tanto orgulho. Uma colecção «Pessoana», de nome e substância. Os Poemas de Ricardo Reis, por exemplo, da sua série de edições. E, muito mesmo, Uma Admiração Pastoril pelo Diabo, ensaio comunicante entre Pessoa e Pascoaes, da autoria de António Feijó, este na série ensaios. Falo aqui deste último porque se reveste do mesmo acerto gráfico, dando continuidade aos poemas de Pessoa. Se a Imprensa Nacional tinha a mais importante edição crítica, tem agora uma coleção mais pequena, despida dos paratextos e para um maior público, que faz jus à importância de Pessoa.

Coberto por bandeira, ao lado de turistas ou com crianças a indicarem a razão da estatuária, o senhor Fernando está bem vivo na Imprensa Nacional.


por Cláudio Garrudo







A arquitetura também é consciência social e política. As opções que se fazem por princípios estão intimamente ligadas às formas, ao conteúdo, e até à abordagem estética de cada projeto.

Livro: Margarida Cunha Belém
O essencial sobre Álvaro Siza Vieira
Coleção Essencial n.º 118
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012, pág. 25


© Texto: autora e INCM; © Imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016
por Cláudio Garrudo









uma palavra hesitante
que luz em cada cabeça
que esmorece em cada boca
uma palavra só uma
que ninguém imaginou
uma palavra perdida
antes de ser encontrada

Livro: Mário Dionísio
Poesia Completa
Coleção Plural
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
2016, pág. 163

© texto: herdeiros e INCM; © image: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016










por Cláudio Garrudo











O que caracteriza o património cultural de um país é o seu caráter intrinsecamente irreal, simbólico.

Eduardo Lourenço


RP3 — Revista Património Número 3
DGPC / Imprensa Nacional-Casa da Moeda
2016, p.54

© texto: autor, DGPC e INCM; © imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016

por Jorge Reis-Sá

Tenho tido a sorte de envelhecer. Costuma — não em todos os casos, é certo, mas em quase todos — ser acompanhada esta mudança de estado por algum amadurecimento. E acho que posso dizer que, mesmo continuando a usar sapatilhas em eventos que talvez obrigassem a mais solenidade, tenho tido a sorte de amadurecer.

Por isso mesmo, já não me preocupo com o cuidado que se deve ter ao falar em causa própria. Preocupo-me em falar cuidadosamente, sim. Mas a montante costumava estar uma preocupação maior, aquela que dizia respeito à forma como o leitor iria ler não só o texto como o autor. Ou, no caso, a mim. Leitor, meu caro leitor, faça o favor de me ler como entender.

Este preâmbulo de análise psicanalítica corre por causa da coleção Plural. Foi ela que me trouxe à Imprensa Nacional, foi ela que me trouxe a esta Edição Nacional. Mas também foi ela quem me trouxe muito do que editei em anos e anos nas Quasi. Explico.

A Plural, fundada por Vasco Graça Moura, implicava a edição de novos escritores. A Plural, por ele pensada, tinha no nome o mesmo que continuo a acreditar: dar voz a muitos, mesmo que diferentes. Ou, melhor, exatamente por serem diferentes. Foi isso que levei para as Quasi, e é isso que tento que se mantenha aqui, seguindo os preceitos do fundador.

A poesia é só uma, escreveu Cabral do Nascimento. Os Cadernos de Poesia pegaram nessa frase e fizeram-na lema de uma revista. Graça Moura pegou no conceito e criou uma coleção. Plural. E o nome diz tudo.
Começámos pelos vencedores — primeiro prémio e menção honrosa — do prémio homónimo, José Gardeazabel e Alexandre Sarrazola. Editámos agora Mário Dionísio. Nos próximos meses, serão publicadas obras de Eucanaã Ferraz, Vasco Gato, Rui Lage e J. H. Santos Barros. Três gerações, para começo de conversa. Se aqui somarmos Mário Dionísio, serão mesmo quatro. Têm mais de diferente na aproximação ao texto poético do que de semelhante. O cuidado quase estrutural de Eucanaã ou o discurso longo de Santos Barros. Um poeta de agora, outro que morreu no início dos anos 80. E, no entanto, como ficam bem na mesma coleção.

Os livros estão aí. E aí vão estar os que referi. Com as mãos sapientes do André Letria a abraçá-los. Para os olhos sensíveis de quem os quiser ler.

Coleção Plural. Design de André Letria.


JÁ PUBLICADOS:


José Gardeazabal
história do século vinte

Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Março de 2016
250 páginas
ISBN 978-972-27-2412-8






Alexandre Sarrazola
Fade Out
Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Março de 2016
80 páginas
ISBN 978-972-27-2414-2






Mário Dionísio
Poesia Completa

Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Junho de 2016
592 páginas
ISBN 978-972-27-2450-0







NO PRELO:

Eucanaã Ferraz
Poesia (1990-2016)
Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Setembro de 2016





Vasco Gato
Contra Mim Falo
Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda






Rui Lage
Estrada Nacional
Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda




 


J. H. Santos Barros
Poesia Completa
Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda