por Cláudio Garrudo






 



Fê-lo em nome dos valores e dos princípios que sempre haviam regido a sua vida. Fê-lo em nome da liberdade e do direito à vida. Obedeceu à voz da sua consciência, que é a mais forte e audível que nos deve orientar nas horas difíceis.


Livro: Aristides de Sousa Mendes, um homem de coragem,
Texto de José Jorge Letria e ilustrações de Alex Gozblau,
coleção Grandes Vidas Portuguesas (infantojuvenil),
Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Pato Lógico, 2015


© do texto: do autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016








por Cláudio Garrudo




 


Desceu ao pátio, onde as árvores adensavam a sombra do crepúsculo, carregado de fuscas nuvens. E abria o portão quando esbarrou com um rapaz que se esbaforia sobre a perna manca e gritava: É um telegrama!.

Livro: Eça de Queirós,
A Ilustre Casa de Ramires, coleção Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2014



© do texto: editor textual e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016



por Cláudio Garrudo













Aguardo, equânime, o que não conheço –
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.


Livro: Fernando Pessoa,
Poemas de Ricardo Reis, coleção Pessoana,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015.



© do texto: editor textual e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016


Cláudio Garrudo, produtor, fotógrafo e consultor da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, passa a ser presença regular no PRELO.

«Citador Imaginário» é uma crónica visual criada a partir da relação texto/imagem, e é fruto das vivências diárias na INCM. Uma imagem que leva a descobrir um texto, ou um texto que leva a criar uma imagem.

Semanalmente, no prelo.

Cláudio Garrudo é organizador e fundador do «Bairro das Artes – a rentrée cultural da sétima colina de Lisboa» e diretor da «Isto não é um cachimbo.Associação». Como fotógrafo já expôs individualmente em Portugal, Espanha, República Checa, Eslováquia e Roménia, é representado pela Galeria das Salgadeiras e editou cinco livros. O seu trabalho artístico assenta no cruzamento de diferentes territórios como a pintura e a literatura, sendo, neste contexto, de destacar as séries Quintetos com texto de Eduardo Lourenço, Os Senhores do Bairro com Gonçalo M. Tavares e Trindade para a Mensagem de Fernando Pessoa.
Foi produtor da revista Egoísta e do Atelier 004 durante 9 anos, embaixador da Pampero em Portugal durante 3 anos e gestor de projetos na Flúor Design durante 5 anos.


© dos textos: dos autores e INCM; © das imagens: Cláudio Garrudo












por Jorge Reis-Sá



Um livro não é só um livro. Quando se pensa num livro, pensa-se — e tão erradamente — em romance. Talvez porque tudo na nossa espécie seja a procura biológica do outro. Mas um livro é mais do que literatura.

A maior parte dos livros dizem mais do que ficção. Temos de convir que a própria ficção está muito sobrevalorizada. Para quê contar histórias quando a realidade nos surge como bem mais interessante? De invenções está o mundo cheio — a um escritor talvez baste compor a realidade para melhor ser apreendida.

Um livro também não é só letra. Pode e deve ser imagem. Como pode e deve ser ajuda. E é isso que este livro é.

Uma agenda, dir-se-ia. Mas tão mais do que isso. Um livro de pleno direito, sem a diminuição que a papelaria tem em relação à livraria. Uma obra artística.

Há já muitos anos que Luísa Ferreira Nunes nos oferece os seus desenhos. Acompanham-nos diariamente, lembram-nos. Porque o que nos trazem é a biologia diversa em todo o seu esplendor. São desenhos que são pinturas e agendas, diários, que nos permitem compor cada um com a nossa caligrafia. A biologia é um património vivo, como é a vida — não fosse a definição de biologia o próprio estudo da vida. E a agenda que a Imprensa Nacional em boa hora editou está fadada para nos ajudar a compor a nossa.

Título: Agenda Natural.PT — Património Vivo
Autora: Luísa Ferreira Nunes
176 páginas impressas nas oficinas da Imprensa Nacional-Casa da Moeda em papel Cyclus Offset 100% reciclado em Dezembro de 2015.




Jorge Reis-Sá, membro do júri do Prémio INCM / Vasco Graça Moura (instituído em 2015) e consultor da Imprensa Nacional-Casa da Moeda para a área editorial, passa a ser presença regular no PRELO, com a sua rubrica «Edição Nacional», um espaço de recensão crítica que incidirá especificamente sobre as publicações da INCM.

Jorge Reis-Sá, licenciado em Biologia, fundou em 1999 as Quasi Edições, que conduziu até 2009. É escritor, editor e consultor editorial, colaborando frequentemente com a imprensa. Editou dez livros de poemas, os últimos dos quais: Teoria dos Conjuntos (2009), Mulher Moderna (2011) e Instituto de Antropologia (2013), e seis de narrativa, entre os quais a memória Por Ser Preciso (2004), vencedor do Prémio Manuel Maria Barbosa du Bocage, e A Definição do Amor (2015). Organizou também diversas antologias, de que se destaca Anos 90 e Agora — Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa (2001).
«Entre nós, tem-se hoje medo da linguagem límpida e transparente, que se teme seja tomada por “simplória”. De aí os contorcionismos complicados que passam por pensamento profundo e inacessível. E logo nos apetece atirar-lhes ao rosto com as palavras do clássico que António Sérgio gostava de citar: “porque vendem a sua ignorância por mistério, e como ninguém quer mostrar que ignora o que o outro mostra que sabe, fica-lhes mais perto aprovar a parvoíce alheia que descobrir a própria.” O nosso político sofisticado ou intelectual bem faisandé fogem da linguagem clara como da peste e substituem a profundidade ou subtileza do pensamento, que não possuem, pelo compacto pretensioso da escrita, que não dominam. Psicólogo ferinamente arguto dos alçapões da mente humana, Nietzsche observava já que “aquele que sabe que é profundo esforça-se por ser claro; o que o quer parecer diante das turbas, esse procura a obscuridade.” É-se complicado por incapacidade de se ser complexo. […]

Assassinato, portanto, da clareza de pensar, de observar e de apreciar. Assassinato. Mas então, digo eu, trata-se de um crime que tem vindo a cometer-se com uma lentidão perfeitamente lúgubre: há bem pelo menos seiscentos anos que ele dura. Nós queixamo-nos com ênfase: estão a assassinar o Português! Mas o rei D. Duarte também já era dessa opinião; tanto, que se preocupava com arranjar receitas de bem escrever que impedissem os seus contemporâneos de assassinarem o português. No Leal Conselheiro, por exemplo, aconselha a “que escreva coisas de boa substância claramente, para se bem entender, e formoso o mais que ele puder, e curtamente quando for necessário (…)”. Pede também “que não ponha palavras que, segundo o nosso costume de falar, sejam havidas por deshonestas”.» […]

(…) o apocalipse que hoje se anuncia como pendente sobre a língua portuguesa é apenas mais um de entre vários apocalipses periódicos que ao longo dos anos os nossos alarmados puristas têm vindo a anunciar como sendo, todos eles, decididamente terminais…* A morte de uma língua é um pouco como a morte de um romance — um tema com que se costumam entreter os especialistas, que gostam de a anunciar e lhe analisar, eruditamente, as causas e os efeitos. O romance, no entanto, vai sobrevivendo à sua anunciada extinção. A língua também. Os anjos anunciadores é que são passageiros e vão tendo que se substituir uns aos outros, a bem da persistência do tema. (…)

Dito o que acima dissemos, resta-nos acrescentar que achamos realmente preocupante, neste momento que atravessamos, (deixemos em paz o passado e o futuro), o acelerado da erosão. O remergulho periódico na nossa paróquia linguística estonteia-nos. O “invasor” brasileiro substituiu o francês de outros tempos, com a agravante de que a abundância e a rapidez dos meios de comunicação agravam a intensidade do assalto. Não que pugnemos por uma conservação rígida da língua. Na prática da escrita, mesmo (mesmo, porquê?) ensaística, a reinvenção da língua, a criação de termos novos e de formas novas parecem-nos de obrigação. Não há como fugir-lhes. Mas parece-nos também que um certo equilíbrio entre o que se conserva e o que se acrescenta é igualmente necessário. O ponto em que esse equilíbrio vai estabelecer-se é que é o nó do problema. João de Araújo Correia sugere esta regra de ouro: “Não concebas neologismos inúteis. Podes morrer de parto.” A palavra-chave, nesta norma, é o adjetivo “inúteis”. Há neologismos que são mais do que úteis, são indispensáveis para mantermos a língua em movimento. Mas a proliferação anárquica e cancerosa do neologismo desnecessário e inoperante pode levar a língua para descaminhos que nos façam pensar no que disse Breton, embora com intenção diferente do que aqui lhe damos: “A linguagem foi dada ao homem para que ele faça dela um uso surrealista.”

Antes de terminar, gostaria de sublinhar uma vez mais um ponto a que já anteriormente aludi e me parece mais importante até do que a importação de estrangeirismos ou qualquer eventual heresia gramatical. Refiro-me à sinceridade linguística, se assim lhe podemos chamar: nos contorcionismos, no entupimento de colarinhos engomados, naquilo a que Sérgio chamava “frenéticos caprichos deliriosos de fantasmagórica anarquia”, nessa prosa pretensiosa e nebulosa que hoje abunda e se eriça nas páginas dos nossos jornais, revistas e livros, estão os sintomas, quanto a nós, de uma falta de integridade intelectual que claramente nos assusta.

Mas, em suma, e para voltarmos ao nosso discurso, fico-me com Correia Garção e com ele, repetindo-o, eu fecho:
Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes
Camões dizia imigo; eu, inimigo.
O ponto está em que ambos expliquemos
Aquilo que pensamos (…)

Londres, Abril de 1981»


* Eugénio Lisboa refere-se aqui a autores cujas posições públicas cita uns parágrafos mais atrás, como José Ferreira de Vasconcelos, D. António Pinheiro, bispo de Leiria (séc. XVI); Duarte Nunes de Leão, Rodrigues Lobo (séc. XVII); Correia Garção (séc. XVIII); Francisco Manuel do Nascimento (Filinto Elísio), José Agostinho de Macedo, Frei Francisco de São Luís (sécs. XVIII-XIX); mas também António Feliciano de Castilho, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental (séc. XIX); Ramalho Ortigão, Cândido de Figueiredo (sécs. XIX-XX); e Afonso Lopes Vieira (séc. XX).

Eugénio Lisboa, «Mudam-se os Tempos, Mudam-se os Costumes», 
in Estão a Assassinar o Português! 17 Depoimentos
Coleção Temas Portugueses, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983

« (...) Quanto à influência que os brasileiros têm exercido sobre os portugueses, numa espécie de volte-face da colonização, será proveitoso recordarmos, dentro do campo da literatura, quanto tantos autores contemporâneos «devem» aos escritores brasileiros e ao seu uso do português. Quem não conhece a influência dum Manuel Bandeira, duma Cecília Meireles, dum João Cabral de Melo Neto, dum Drummond de Andrade, em cuja famosa «pedra» tropeçamos tão frequentemente nos textos de alguns dos nossos melhores poetas do pós-guerra? E o que dizer da influência de escritores-linguistas como Guimarães Rosa ou de estilistas como os do Grupo Noigandres? De facto, quanto não assimilaram os portugueses dos seus colegas brasileiros? E também: quanto não assimilaram dos espanhóis? E dos franceses? E quanto não deve Fernando Pessoa à língua inglesa e sua literatura? E quanto não devem a essa e à norte-americana as nossas mais jovens revelações literárias que as redescobrem agora nos seus elegantes textos?

Realmente: quanto não assimilamos todos uns dos outros?

Mas uma coisa é a assimilação, a permuta e até a circularidade; outra é a poluição. A nossa língua não empobrece nem degenera com a incorporação controlada de «sangue novo» vindo de «outros corpos» linguísticos. Ela empobrece e degenera quando não se renova, quando estagna, quando se esvazia. O verdadeiro perigo está na poluição da palavra, no seu uso insignificativo. A poluição da palavra, da fala, da língua, é um fenómeno que se tem vindo a agravar com a excessiva quantidade de informação que circula nas sociedades industrializadas. Esse excesso de informação redundante, alienante, a todos confunde e atinge principalmente aqueles que não têm preparação para destrinçar, para escolher e rejeitar, ou seja, para se libertarem do supérfluo.

Se a escolha ainda é possível, então tudo não está ainda perdido. Se ainda é possível distinguir, ainda é possível pensar-se em termos de uma ecologia da palavra, que implica uma reformulação da nossa maneira de viver e que terá de ser tão radical quanto é vasta a escala do problema.

Se tudo isto não é demasiado utópico, então ainda há realmente esperança. E então façamos um pedido: não nos tirem o gosto pela aprendizagem em nome do imobilismo e da falta de imaginação!

Junho de 1981»

Ana Hatherly, «Para uma Ecologia da Palavra», 
in Estão a Assassinar o Português! 17 Depoimentos
Coleção Temas Portugueses, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983 

A pedido da PRELO, Duarte Ivo Cruz — especialista em teatro e autor da INCM — comenta a nova temporada do TNDM II.
O D. Maria II é um importante parceiro editorial e artístico da Editora do Estado, com uma tradição já consolidada de pequenas produções de teatro e leituras encenadas no espaço acolhedor da Biblioteca da Imprensa Nacional. Para 2015/2016, muitas novas iniciativas estão já em preparação.


TEATRO NACIONAL D. MARIA II: A DIVERSIDADE CULTURAL DA TEMPORADA 2015/2016


Edifício do Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio

por Duarte Ivo Cruz

A próxima temporada do Teatro Nacional D. Maria II, recentemente anunciada, concilia a exigência de qualidade de espetáculos com uma diversidade de géneros e épocas que deve de facto constituir como que um referencial e de certo modo um modelo de companhia profissional, simultaneamente vocacionada para a modernização do repertório clássico e para a revelação de novos autores, novas estéticas e novas técnicas de espetáculo: e isto, nas dimensões programáticas acima referidas, e tendo em vista ainda a própria renovação de elencos e colaborações.

Um teatro que tem pois de contemplar simultaneamente as exigências de renovação e uma função digamos formativa e educativa, no plano dos autores, dos espetáculos, dos atores-encenadores, dos cenógrafos, dos técnicos, do público…


Sala Almeida Garrett

E tudo isto num envolvimento global que transcende a produção de espetáculos para abarcar uma linha constante de conferências, debates, edições. E mais ainda: um teatro que não se fecha na sua própria companhia e abre-se a produções e colaborações numa abrangência de descentralização cultural que engloba companhias e espetáculos diversos: destacamos especificamente, entre outros mais, espetáculos e iniciativas de intercambio cultural nacionais e internacionais, com colaborações diversas em Lisboa e em (ou com) companhias e teatros do Porto, Minho, Viseu, Açores, e ainda Paris e outras cidades francesas, Irlanda, Noruega, Suíça, Bélgica.

No repertório da companhia residente, salienta-se, no que se refere à dramaturgia portuguesa, a linha de renovação com peças e colaborações dramatúrgicas que envolvem numerosos autores portugueses, a nível de revelação de textos.

Teremos ainda uma revisão dos clássicos em versões e interpretações textuais e de espetáculos, dos gregos (Ifigénia, Agamémenon e Eletra) a Shakespeare, com um festival e algumas peças dispersas: Romeu e Julieta, Muito Barulho por Nada, António e Cleópatra e ainda Ricardo III; e na mesma linha, Molière, com O Imprompetu de Versailles. Mas também toda uma dramaturgia portuguesa de autores contemporâneos, alguns constituindo revelações ou renovações. E haverá espetáculos de teatro popular português, designadamente um ciclo denominado Ocupação Minhota.

E toda esta programação de espetáculos é acompanhada e de certo modo prolongada por ciclos vastos de conferências, publicações e exposições e evocações diversas. Salienta-se a evocação da Origem das Espécies de Darwin, ou, noutro plano ainda, a evocação/homenagem a 74 anos da carreira de Eunice Muñoz . E ainda um conjunto de espetáculos para a infância e juventude, ou a evocação dos 170 anos do próprio Teatro D. Maria II: sala que, como se sabe, remonta a Garrett e representa, com todas as oscilações de qualidade e continuidade, ao longo deste longo historial, um património de cultura e exigência que em muito transcende até a História do Teatro Português, em si mesma.

Em resumo: uma programação vasta, variada, que cobre toda a vasta e variada intervenção cultural da arte do teatro.

Adequada portanto a uma Companhia de Teatro Nacional.

por ANTÓNIO MEGA FERREIRA

É seguro prever que Vasco Graça Moura (VGM) será lembrado sobretudo como excelente poeta, excecional tradutor e ensaísta erudito. Mas as múltiplas dimensões em que exerceu a sua atividade de intelectual (isto é, de homem de cultura com intervenção constante na vida pública), tornam esta memória futura insuficiente para abarcar uma personalidade que foi, a par da sua condição de criador e estudioso, também a de um homem de ação.

Após uma breve passagem pela direção do 1º canal da RTP, entre 1978 e 1980, foi como administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda que VGM marcou duradouramente a vida cultural portuguesa, em especial na sua vertente editorial. Durante cerca de dez anos, que abarcaram quase toda a década de 80, VGM deu à editora do Estado uma dimensão e uma capacidade de intervenção na vida cultural que lhe era até então praticamente desconhecida, dotando a empresa de uma política editorial agressiva e competitiva, que suscitou não poucas reservas aos editores privados, habituados ao ramerrão sonolento da editora do Estado, à qual se atribuía apenas a missão de publicar o Diário da República. No passado, a Imprensa Nacional fora mais, muito mais do que isso; VGM entendia que os novos tempos da democracia exigiam que a editora pública voltasse a assumir um papel de liderança na edição de livros, intervindo não apenas supletivamente em relação aos editores privados, mas, até, em concorrência com eles, quando se se tratasse de privilegiar a cultura portuguesa.

Foi por isso que, nessa década prodigiosa, a INCM editou a Trilogia da Mão de Mário Cláudio, os dois volumes de Post-Scriptum de Jorge de Sena e a poesia de Alexandre O’Neill e António Barahona ou Maria de Lurdes Belchior e Pedro Homem de Mello; as Obras Completas de Nemésio e Almada; coleções de ensaios sobre Temas Portugueses, incluindo autores como Eduardo Lourenço, Antonio Tabucchi, Cleonice Berardinelli ou Eduardo Prado Coelho, e de Clássicos Portugueses, como Tomé Pinheiro da Veiga, Camões (a Lírica, em edição preparada por Maria de Lurdes Saraiva), ou a narrativa cómica Eufrósina de Jorge Ferreira de Vasconcelos; que se abalançou a publicar a edição portuguesa da monumental Enciclopédia Einaudi, dirigida por Fernando Gil; que lançou a coleção de Arte e Artistas, na qual tive a oportunidade de colaborar; que avançou com uma coleção de poesia, Plural, na qual editaram os seus primeiros poemas alguns jovens poetas portugueses; que abriu uma coleção de Autores dos Países de Língua Portuguesa, em 1984; que arriscou reeditar em fac-símile prestigiosas edições antigas, como a das Poesias Inéditas de Pero de Andrade Caminha, as Poesias de Sá de Miranda coligidas por Carolina Michaëlis de Vasconcelos ou a Crónica Geral de Espanha de 1344.

Estou a esquecer-me de muito? Sem dúvida. Cito ao fio da memória e, se puxasse ainda mais por ela, ficaria aqui a referir títulos que ilustrariam como VGM tinha da edição o mais alto conceito: para ele, a cultura de um povo mede-se pela capacidade de disponibilizar a toda a gente, em livro, as suas obras mais representativas. Prolongaria esta sua visão no impressionante trabalho editorial que animou quando presidiu à Comissão dos Descobrimentos (CNCDP), entre 1988 e 1995. Para lá do vigor da sua obra literária, é como editor de livros que a obra de VGM mais definitiva e duradouramente me parece marcar a vida cultural portuguesa.

AMF

Março de 2015