por Cláudio Garrudo






Sabemos alguma coisa? Eu sei que me aborreço sem ti e sem o meu cavalete.
Maria Helena Vieira da Silva


Livro: Escrita Íntima,
Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes
— Correspondência 1932-1961

Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva
2013, pág. 205


por Cláudio Garrudo






… um museu é sempre um espaço de viagem, na narrativa que se autoconstrói e que aos outros se oferece, em itinerário definido pelas obras que exibe e pelo contexto em que se inscreve a sua exposição…
António Filipe Pimentel



Livro: Obras em Reserva – O museu que não se vê
Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Museu Nacional de Arte Antiga
2016, pág. 9



© texto: autores, MNAA e INCM; © imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016







por Jorge Reis-Sá


Na última «Edição Nacional» as palavras foram para Camilo. Mas terminaram dando conta do que nesta se ia dar conta: do verbo «colaborar».

Eu gosto muito de «colaborar». Agora, confesso. Dantes, os trabalhos de grupo maçavam-me. Embora saiba bem porquê: é difícil colaborar com quem está mais interessado no futebol ou nas meninas do que nas aulas. Lamento muito confirmar: eu era o interessado nas aulas. Felizmente, cresci. E se agora ainda gosto de colaborar, passei a ter muito mais interesse pelo jogo e pelo sexo oposto.

O que a Imprensa Nacional tem feito deixa-me, como português, orgulhoso. Até parece, quando escrevo estas palavras, que sou de elogio fácil. E sou. Mas só porque verdadeiro. Sou muito contra aqueles que criticam como desporto, que se detêm quando vão a dizer bem de algo porque «fica mal». Fica melhor dizer mal, bem sei. Mas e se nos deixarmos guiar pela verdade, não será melhor? Pela nossa, pelo menos.

E neste caso, alguém que me diga que a ideia não é boa. Em vez de termos editoras comerciais a fazerem preços absurdos aos museus nacionais (os preços podem ser absurdos, a necessidade e a liberdade de os fazer são inatacáveis) para editarem os catálogos e afins, temos a editora do Estado a trabalhar com eles, em parceria (gosto desta palavra, mesmo parecendo tirada do Compromisso Portugal), para nos trazer os melhores livros. Poderá «perder» dinheiro? Certamente. O museu paga menos? Certamente. Mas não é para isso que há uma Imprensa Nacional? Para complementar e servir o público com o que as outras não podem?

Colaborar é bom e eu gosto.

Título: Da Fotografia ao Azulejo
Autor: José Luis Mingote Calderón
192 páginas, com design de A. Cruz Design Studio, impressas nas oficinas da Imprensa-Nacional em 2016, para uma edição em parceria com o Museu Nacional de Soares dos Reis.

por Cláudio Garrudo








No distante ano de 1777, a coroa portuguesa emitiu um aviso oficial, assinado pelo Marquês de Pombal, que mandava guardar «huma moeda de cada cunho, e qualidade de metal, que se puderem ir achando, não só deste reino, mas geralmente de todas as partes do mundo.»


Livro: Cara ou coroa? Pequena história da moeda
Texto: Ricardo Henriques
Ilustração: Nicolau
Coleção Museu Casa da Moeda
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2016
por Cláudio Garrudo






Desde que Scott Fitzgerald lá viveu e Andy Warhol aí filmou Chelsea Girls, essa espelunca boémia tornou-se popular até nos bas-fonds, sendo frequentes os roubos em pleno elevador. Sempre prometo a mim mesmo não voltar, mas o frisson faz-me não ligar às promessas feitas.

Livro: Almeida Faria
Os Passeios do Sonhador Solitário, Conto e Libreto
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2011


© texto: autores e INCM; © imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016








 por Cláudio Garrudo










Todos nós éramos
corpos nómadas
sonhando navegar
nas noites hedónicas
inebriantes de Amesterdão

Livro: José Luís Hopffer C. Almada,
Rememoração do Tempo e da Humidade (Poema de Nzé de Sant’y Ago)
Coleção Escritores dos Países de Língua Portuguesa, n.º 42
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015, p. 91

© do texto: autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016

   Jorge Reis-Sá


Falemos do senhor Castelo Branco. Mas do que interessa.

Há uns anos, o JL convidou-me para escrever um depoimento sobre Camilo. Entre a irreverência da juventude e um trauma juvenil, escrevi algumas considerações. Agora, sei, certamente injustas. Não à obra do senhor de Seide, mas àquilo que faziam com a figura em Famalicão por alturas da minha adolescência.

Esse trauma materializava-se num camilo pintado na parede do polivalente do liceu, a assombrar todos os jovens que lá entravam. E eu, note-se, gostava de ler. O que aquela figura fazia aos reguilas lá do burgo, só mesmo as psiquiatras para aferirem tantos anos depois. A mim, doía-me a alma ver aquela pintura tão dada, imberbe e horrível do alto dos seus três ou quatro metros. Doía-me ver Camilo tão mal retratado, na mesma proporção que que foi abraçado pelos meninos e meninas de Educação Visual ou do curso secundário de Artes e que, agora, trabalham muito bem em seguradoras ou em bancos, dado o jeito evidente.

Mas o tempo cura tudo. Tanto que o Parque Escolar do Engenheiro das Beiras permitiu mandar abaixo o liceu inteiro. Desse trauma eu não me livro era o meu liceu e agora é um conjunto de caixas inócuas. Mas pelo menos com ele foi aquele camilo, grande e minúsculo, permitindo o aparecimento na minha vida do Camilo maiúsculo.

Como editor tive o raro privilégio de o editar há poucos meses e de estar a colaborar com o Centro de Estudos Camilianos e a Câmara de Famalicão para o editar ainda mais. São livros de capa dura, com duas narrativas em cada volume, para que se fixe em casa de quem ainda o não tem. Como leitor tenho a sorte de ver a Imprensa Nacional a fazer o que deve: editá-lo bem mas em capa mole. Livros sem mácula, de tão brancos. Livros bem feitos, de tão bem pensados nos materiais. Livros que completam o que tenho feito com a autarquia famalicense. Quererão maior exemplo de serviço público do que a complementaridade que pessoalmente sinto? A ela voltarei em breve, àquela que junta várias entidades como Castelo Branco juntou. Não esse, mas o que interessa.


Título: A Sereia de Camilo Castelo Branco
Quarto volume das obras de Camilo Castelo Branco
Edição de Ângela Correia e Patrícia Franco
256 páginas com capa e design de Undo, impressas nas oficinas da Imprensa-Nacional em Coral Book Ivory de 90 gramas durante o mês de Outubro de 2015.



por Cláudio Garrudo










e o tempo-antes cresce. Qual balanço,
uísque, livro, fumo azul – a espera!
Adulterado tempo-agora, avanço
da paixão em demência que acelera



Livro: Alexandre O’Neill
«Soneto da Espera»
Entre a Cortina e a Vidraça (1972)
in Poesias Completas 1951/1986
coleção Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995, p. 324

© do texto: representantes do autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016

por Cláudio Garrudo








A nossa fé transcende o imediato. Nós temos de ver mais longe do que o dia de amanhã.


Livro: António Torrado, Maio de 58
Coleção de Teatro Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015

© do texto: autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016
por Cláudio Garudo










As creanças ás vezes sentam-se umas em frente das outras, e fazem uma roda em que cada um conta a sua historia e depois de se terem já acabado as historias, ainda sobejou muita vontade de falar, de modo que fazem umas perguntas assim neste genero: De que é que tu gostas mais em todo o mundo?

Não ha ninguém que possa dizer que esta pergunta não esteja bem feita! Pois só as creanças são capazes de ter uma curiosidade d’estas! Em geral, as pessoas quando têm já uma certa idade, começam a ter muito que fazer e não teem tempo sequer para saber do que gostam mais em todo o mundo.

in Diário de Lisboa , 24 de Novembro de 1924, p.3


Livro: Almada Negreiros, Obras Completas, Vol. III — Artigos no Diário de Lisboa
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988, p. 103

N.E. A grafia utilizada na presente edição respeitou tão rigorosamente quanto possível a que foi utiizada pelo Autor nos textos publicados no Diário de Lisboa



© do texto: representantes do autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016

por Cláudio Garrudo








Para muitas pessoas é a mais bela imagem do século
não é picasso nem pollock
mas o planeta, ligeiro e azul, como uma fase azul de uma pintura,
tal qual os outros o veriam, se viajassem assim, acima dele.



Livro: José Gardeazabal, história do século vinte,
vencedor do Prémio INCM / Vasco Graça Moura 2015 — Poesia

Coleção Plural, INCM, Lisboa, 2015


© do texto: autores e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016

  por Cláudio Garrudo









A ânsia de conquista de uma realidade nova, que é em todas as artes a grande força motora, afirma-se particularmente na arte da linha e da cor, saturada do academismo burguês; mas depressa o próprio abstracionismo se academiza e, ameaçado pela decoração e por um formalismo snob, resvala com frequência para o mero exercício da astúcia.


Livro: Urbano Tavares Rodrigues, A Natureza do Acto Criador,
Imprensa Nacional-Casada Moeda, 2011

© do texto: herdeiros e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016

por Cláudio Garrudo










A excelência e diversidade formal deste trabalho nascem de um experimentalismo que explora as linguagens, técnicas e materiais das diferentes expressões artísticas.


Livro: Victor Palla, coleção D, n.º 2, prefácio de Bárbara Coutinho
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2011

© do texto: autores e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016







por Cláudio Garrudo








Mais: D. Quixote não vê a realidade com os olhos dos heróis que incensa; simplesmente, não vê a realidade, porque a projeta num écran de palavras, de acordo com os episódios acumulados na sua memória: de facto, relê a realidade de acordo com a letra dos livros que carrega dentro se si.


Livro: António Mega Ferreira, O Essencial sobre Dom Quixote,
coleção Essencial, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015



© do texto: autor e INCM
© da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016







por Cláudio Garrudo










Um amigo meu, que depois de ser, durante anos, um mau poeta, se regenerou, e se tornou um bom crítico, costuma sempre com a sua autoridade de antigo mareante experiente em escolhos e naufrágios, aconselhar os poetas novos a que procurem os temas e motivos dos seus poemas fora do próprio e estreito coração e das duas ou três palpitações que nele perpetuamente se repetem.


Livro: Eça de Queirós, «Anexo»
in Contos, vol. I, edição e notas de Marie-Hélène Piwnik,

coleção Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009


© do texto: editor crítico e INCM
© da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016







por Cláudio Garrudo







Há uma ausência que vibra
Mais que uma presença.
Corre-nos fibra a fibra,
Densa, concreta, imensa.


Livro: Alexei Bueno,
de viva voz – antologia de poesia portuguesa contemporânea,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2010


© do texto: autor e INCM;
© da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016







por Cláudio Garrudo







A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.
Na vida real, recebêmo-la como ela sai dos encontrados casos, ou da lógica implacável das coisas; mas na novela, custa-nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte.

Livro: Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco, 
coleção Edição Crítica de Camio Castelo Branco,
edição de texto de Ivo Castro,

Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007


© do texto: editor crítico e INCM
© da imagem: Cláudio Garrudo.
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016










por Jorge Reis-Sá


«O tempo não passa por mim: é de mim que ele parte.»

Sai da Aparição para abrir uma agenda. Aquela que a Imprensa Nacional publicou há poucos meses, celebrando o ano centenário. Aquele que conta cem depois da aparição do velho Vergílio.

Não o conheci, morreu em 1996, a escrever o Cartas a Sandra — ou se assim não, assim fica para sempre, porque assim termina este seu último livro. Terá sido a escrever outra coisa, certamente. Mas nada de mais literário do que ter terminado uma vida de palavras escrevendo. Mas se o não conheci sempre o soube velho. Vergílio Ferreira diz-me muito porque também eu acho que nunca nasci novo. Sem comparações nos méritos literários, para acalmar as hostes. Nem nas olheiras, assim o espero. Mas comparando os sentires que nos parecem e aparecem no meio de cada frase escrita.

A agenda, essa, tem uma particularidade que a distingue. Faz-nos escrever a hora da reunião por cima das frases de Vergílio Ferreira. «Reunião na Imprensa Nacional — colecção Plural». E, por baixo, «Aproveita a vida enquanto ela é vida dentro de ti.» O que pode parecer muito jovem, assim descontextualizado. Não. Porque continua na agenda e no «Pensar». «Aproveita o teu corpo enquanto és tu que lá moras.» E continua e diz cada vez mais: «Aproveita enquanto estás.» Não há jovem que escreva tal coisa. E eu tenho a certeza absoluta que Vergílio Ferreira escreveu este pequeno «pensar» quando lhe pediram, na escola primária, a redacção sobre a vaca.


Título: Vergílio Ferreira, Agenda 2016 INCM
Coordenação Científica: Helder Godinho, Fernanda Irene Fonseca e Jorge Costa Lopes
200 páginas impressas nas oficinas da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em outubro de 2015.





por Cláudio Garrudo






Não, não é possível que estas coisas me passem pela cabeça. Não é possível. Mas um vento seco trouxe-me vozes de muito longe, dum deserto que se estendia ao longo da minha imaginação, um deserto sem árvores, sem pedras, sem montes, sem tempo.

Livro: José Manuel Arrobas,
A Decadência do Sonho, coleção Plural,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988



© do texto: do autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016







por Cláudio Garrudo






 



Fê-lo em nome dos valores e dos princípios que sempre haviam regido a sua vida. Fê-lo em nome da liberdade e do direito à vida. Obedeceu à voz da sua consciência, que é a mais forte e audível que nos deve orientar nas horas difíceis.


Livro: Aristides de Sousa Mendes, um homem de coragem,
Texto de José Jorge Letria e ilustrações de Alex Gozblau,
coleção Grandes Vidas Portuguesas (infantojuvenil),
Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Pato Lógico, 2015


© do texto: do autor e INCM; © da imagem: Cláudio Garrudo
Fotografia com dispositivo móvel, INCM, Lisboa, 2016