O Livro Branco da Melancolia, publicado na coleção «Plural», em 2019, é uma antologia que reúne, propositadamente de forma continua e irreferencial, os mais significativos poemas de José Jorge Letria -  poeta, ficcionista e jornalista. O Livro Branco da Melancolia conta também com um prefácio de autoria de Yvette K. Centeno.  José Jorge Letria lê aqui o poema «De mim se dirá um dia».






DE MIM SE DIRÁ UM DIA

De mim se dirá um dia,
na arrastada surdina dos rumores,
que fui tantos que lhes perdi a conta,
sendo todos ao mesmo tempo
e não sendo nenhum em absoluto.
É verdade que me desdobrei em vozes
que não soube nem quis disfarçar
sob a capa enganadora de outros nomes.
É verdade que caldeei para os livros
o meu total assombro perante a vida,
a minha dolorosa impaciência
perante a ausência de sentido.
De mim se dirá um dia, pressinto,
na vociferante prosápia das tribunas,
que esbanjei o que tinha para dar
no ritual dispersivo de tantas escritas.
Se assim acontecer, juro que nada farei,
deixando-me ficar sentado na muralha,
a olhar o mar e os seus múltiplos rostos,
como quem se perde naquilo que o prolonga.



José Jorge Letria in O Livro Branco da Melancolia, pág. 406





Celebramos hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Celebramos a nossa história e a nossa língua. É dia de homenagear a diáspora portuguesa e de celebrar Luís Vaz de Camões, figura incontornável da língua e da literatura portuguesas.

Hoje fica em destaque o poema «Portugal Tão Diferente De Seu Ser Primeiro», publicado, em 1980, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em Lírica Completa, Vol. II.


Os reinos e os impérios poderosos,
que em grandeza no mundo mais creceram,
ou por valor de esforço floreceram
ou por varões nas letras espantosos

Teve Grécia Temístocles famosos;
os Cipiões a Roma engrandeceram;
doze pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosos.

Ao nosso Portugal (que agora vemos
tão diferente de seu ser primeiro),
os vossos deram honra e liberdade.

E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
do braganção estado, há mil extremos
iguais ao sangue, e móres que a idade.


Lírica Completa, Vol. II
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Lisboa, 1980



Na «Plural Poesia» de hoje pedimos a Aurea Leminski para ler Paulo Leminski, seu pai. Importante autor brasileiro, a sua antologia poética foi agora publicada em Portugal, num volume da chancela editorial da Imprensa Nacional. Toda Poesia, assim se intitula a antologia, está publicada na coleção «Plural» da editora pública portuguesa.

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Escritor, ensaísta, crítico literário e tradutor, Paulo Leminski é um dos poetas mais acarinhados pelos leitores brasileiros, ao lado de nomes como Clarice Lispector ou Mario Quintana. É também um dos poetas mais expressivos da sua geração continuando a exercer, volvidos mais de 30 anos da sua morte, uma forte influência nas novas gerações de poetas brasileiros. Leminski não era um escritor convencional, foi o típico representante da poesia marginal e, por isso mesmo, longe de qualquer cânone literário.


Deixou porém uma forte contribuição para a história da literatura brasileira do século XX. A aparente simplicidade dos seus poemas, normalmente curtos, provam a sua sofisticação literária, muito influenciada pela poesia japonesa, e, muito concretamente, pela poesia de Matsuo Bashô, de quem também escreveu uma biografia.

Além de poesia, Paulo Leminski escreveu romances, prosa experimental,contos, prosa poética e ensaios, entre tantos outros. Traduziu também obras de James Joyce, John Fante, Samuel Beckett e Yukio Mishima. Na sua curta vida, Leminski teve ainda tempo de esbarrar no terreno fértil da música popular brasileira. Foi letrista, músico e compositor.




Importante autor brasileiro, Paulo Leminski vê agora, pela primeira vez, a sua antologia poética disponível em Portugal, num volume  da chancela editorial da Imprensa Nacional. Toda Poesia, assim se intitula a antologia, está publicada na coleção «Plural» da editora pública portuguesa.

Escritor, ensaísta, crítico literário e tradutor, Paulo Leminski é um dos poetas mais acarinhados pelos leitores brasileiros, ao lado de nomes como Clarice Lispector ou Mario Quintana. É também um dos poetas mais expressivos da sua geração continuando a exercer, volvidos mais de 30 anos da sua morte, uma forte influência nas novas gerações de poetas brasileiros. Leminski não era um escritor convencional, foi o típico representante da poesia marginal e, por isso mesmo, longe de qualquer cânone literário.

Descendente de polacos e portugueses, Leminski nasceu em Curitiba (Brasil) em 1944 e faleceu precocemente em 1989, consequência de uma cirrose hepática que o acompanhou durante vários anos.

Deixou porém uma forte contribuição para a história da literatura brasileira do século XX. A aparente simplicidade dos seus poemas, normalmente curtos, provam a sua sofisticação literária, muito influenciada pela poesia japonesa, e, muito concretamente, pela poesia de Matsuo Bashô, de quem também escreveu uma biografia.

A estreia de Paulo Leminski aconteceu 1964 na revista Invenção, muito ligada ao Movimento da Poesia Concreta. Na poesia de Leminski são nítidos os recursos visuais. O poeta conjuga a linguagem verbal e visual, subvertendo a forma do poema (que resgata do haikai japonês); incorpora elementos da publicidade, da música, da banda desenhada, num estilo marcado por um incontornável poder de síntese. Fazendo uso dos trocadilhos e jogos de palavras, a linguagem de Leminski, tantas vezes enxuta, é sempre cheia de significado.

No campo poético destacam-se as obras Quarenta Clics em Curitiba [1976], Caprichos & Relaxos [1983], Distraídos Venceremos [1987] e os livros póstumos: La vie en close [1991], O Ex-estranho [1996], e Winterverno [2001]. Toda Poesia é a compilação de todos estes títulos.

A edição portuguesa, agora publicada pela Imprensa Nacional, seguiu o volume preparado para a Companhia das Letras, em 2013. Conta com uma introdução de Alice Ruiz S. e coordenação editorial de Jorge Reis-Sá.

Este livro é antes de tudo uma vida inteira de poesia. Uma vida totalmente dedicada ao fazer poético. Curta, é verdade, mas intensa, profícua e original. A análise crítica, melhor deixá-la aos especialistas; aqui, me compete lembrar a história/vida dos livros que enfim compõem este livro único. Um dos primeiros poemas do Paulo, talvez mesmo o primeiro, foi escrito em latim, na segunda infância, nos tempos em que ele estudou no Internato Paranaense. A convivência precoce com o clero lhe deu ímpetos de clausura, mais pelo facilitado recolhimento que é tão propício ao estudo dos movimentos da alma e das riquezas da palavra do que propriamente pela fé religiosa. Não que ela não estivesse presente, mas havia também uma energia viril, aquela que nos faz querer conquistar o mundo e absorver o que ele tem para ensinar. Assim, a clausura durou pouco, como qualquer arroubo da adolescência, mas foi suficiente para deixar raízes, pois o amor pelo conhecimento, uma vez despertado, não se apaga facilmente.

In «Apresentação», por Alice Ruiz S

Além de poesia, Paulo Leminski escreveu romances (Agora é que são elas), prosa experimental, (Catatau) contos (Descartes com lentes), prosa poética e ensaios (Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego), entre tantos outros. Traduziu também obras de James Joyce, John Fante, Samuel Beckett e Yukio Mishima.

Na sua curta vida, Leminski teve ainda tempo de esbarrar no terreno fértil da música popular brasileira. Foi letrista, músico e compositor. Desse melódico encontro entre Leminski e a canção, um dos pontos mais altos é Verdura, interpretada por Caetano Veloso, em 1981, no disco Outras palavras.





Texto: Tânia Pinto Ribeiro
Imagens cedidas por Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Bisneto do professor e filósofo José Texeira Rêgo, Daniel Maia-Pinto Rodrigues cresceu rodeado de livros. Dos primeiros que se lembra de ler a eito vêm-lhe à memória O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier e, logo a seguir, O Homem Eterno, de G.K. Chesterton. Mas o clássico a que volta sempre é a Alfredo Guisado, o poeta d’Orpheu, «gosto muito da poesia que ele escreveu. Aprecio bastante o universo da sua imaginação».

À infância, que lhe correu na cidade do Porto, onde cresceu e ainda vive, recorda-a de uma forma «intensa e positiva» e também determinante para a sua arte da escrita. «Longe vinha em mim o início da escrita, todavia apercebi-me posteriormente de que eu já estava ali dentro de um poema ou de uma ficção.»

Daniel Maia-Pinto Rodrigues, 59 anos, poeta, autor de 20 livros - entre eles um único romance, O Corredor Interior - é um dos mais recentes poetas que viu a sua poesia reunida (os poemas mais antigos são de 1977, os mais recentes a 2015) publicada na coleção «Plural» da Imprensa Nacional, sob o título Turquesa. A propósito deste título, explica-nos o poeta:«Em palavras rápidas e simples, Turquesa representa aquilo que, sendo belo, não se alcançou. Por um mero desencontro ou percalço. Por extensão, representa também a Utopia, a Quimera, o Ideal.».

Para este «portuense do mar e não do rio», a poesia é o terreno onde tudo talvez ainda possa ser dito, mas mais importante do que isso, todavia, é que «ela seja bem escrita». Para Daniel Maia –Pinto Rodrigues a poesia está socialmente na moda. «Nas redes sociais, chovem convites para tudo e mais alguma coisa (dentro da área da poesia e da escrita, já se vê)» A sua obra poética tem merecido a atenção da crítica nomeadamente por arte de autores como Manuel António Pina, Rosa Maria Martelo ou Mário Cláudio. Daniel Maia-Pinto Rodrigues está representado em mais de 30 antologias, dados que não passam despercebidos. «Têm significado. E é claro que entre positivo ou negativo, o significado pende mais para o lado do que é positivo» refere.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues diz que não teve mestres no campo da escrita: «Penso até que, se os tivesse tido, há muito tempo que já me desinteressara da escrita». Refere que são a imaginação e «tudo quanto guarda na memória» a grande bateria de tudo quanto possa escrever. Diz também não se enquadrar num movimento ou num escola. Rui Laje, poeta que assinou o prefácio de Turquesa, explica que a condição de Daniel Maia-Pinto Rodrigues na poesia portuguesa é «uma condição excêntrica e extemporânea». Daniel Maia-Pinto Rodrigues concorda.

Do terreno fértil da poesia para o asfalto. Daniel Maia-Pinto Rodrigues é fã de automobilismo em todas as suas vertentes. Se tiver de eleger uma escolhe as corridas de velocidade, as pistas, os circuitos, o asfalto. «De 1968 até 2003, fui as todas as edições do Circuito de Vila do Conde, sempre com o meu pai. De 1977 em diante existiram duas edições por ano. Fui as mais variadas vezes ao Circuito do Estoril; assisti à primeira vitória do Ayrton Senna na F1. Chovia, foi em 1985, e o Senna foi fantástico! », recorda. Daniel Maia-Pinto Rodrigues teria mil histórias para contar a este respeito… «Desde a pulsação académica contra o regime de Salazar, bem presente lá, nas margens dos rios Corgo e Cabril, em dias de corridas em Vila Real,  aos hippies estirados ao sol, um bocadinho para além das margens, e um bocadinho também mais desvinculados das corridas».

Além da escrita, Daniel Maia-Pinto Rodrigues dedica-se também à intervenção cultural - Daniel não simpatiza muito com esta expressão - e está muito ligado ao Teatro do Campo Alegre. «A partir de 1985, a convite do então presidente, José Viale Moutinho, estive ligado à acção literária da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. A minha ligação ao Teatro do Campo Alegre é somente a de convidado. Sempre o foi.», salienta.

Se a sua vida desse um filme escolheria o australiano Peter Weir, para o realizar. «Picnic at Hanging Rock é o meu filme preferido». E se tivesse de escolher uma banda sonora para o acompanhar encomendava-a aos Camel (com Peter Bardens a acompanhar Andrew Latimer) e não descartaria os Pink Floyd, os Coldplay ou os Sigur Rós.




Em tempos de incerteza convocámos (virtualmente) os nossos poetas e lançámos o desafio: dizer, pela própria voz, a sua própria poesia. Hoje Daniel Maia-Pinto Rodrigues volta ao Prelo para dizer os seus poemas: «A História do Pastor» e «Habituei-me a reconhecer».




A História do Pastor

A seguir a história do pastor.
O pastor vivia em Goinge, floresta normanda.
Era filho dos senhores da Escânia
hoje conhecedores de ciências.
Aos vinte anos sabia já
distinguir as ervas
curava com esmero os golpes do gado.

Entretinha-se com o queixo.
E todos os arroios
o conheciam de sol a sol.

Aos vinte e seis anos
casou com Dourada, a rapariga débil.
Aos trinta
viu realizar-se um sonho antigo:
receber os primos no pátio.
Abriu então cervejas
fritou amêndoas
falou pela primeira vez de nostalgia.


Habituei-me a reconhecer

Habituei-me a reconhecer os dias quentes
pela sonolência dos cães.
Há rios de médio porte
nas zonas baixas das encostas.
Há igrejas de terras pequenas
com primos no adro.
Neste domingo ponho a hipótese
de ir ao rio mais próximo.
Neste domingo ponho a hipótese
de não ir à igreja mais longe.

Considero que já disse
o pouco que queria dizer;

rios que não refrescam,
missas que aumentam o calor.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues nasceu no Porto em julho de 1960. Turquesa  é o seu vigésimo livro.
Turquesa é também a mais recente novidade da coleção «Plural», uma coleção dedicada à poesia em língua portuguesa. Turquesa de Daniel Maia-Pinto Rodrigues reúne poemas dos livros Vento (1983), Conhecedor de Ventos (1987), A Próxima Cor (1993), O Valete do Sétimo Naipe (1994), A Sorte Favorece os Rapazes (2001), O Afastamento Está Ali Sentado (2002), Malva 62 (2005), Dióspiro (2007), A Casa da Meia Distância (2010) e Já Passei Por Aqui (2015).


Turquesa teve direção literária de Jorge Reis-Sá,  capa e design de André Letria. A revisão de texto é de Mário Azevedo. A paginação, impressão e acabamentos da responsabilidade da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Saiba mais detalhes na nossa loja online. Aqui.


Alice Sant'Anna publicou, pela Imprensa Nacional, em maio de 2018, Aula de Natação, um livro repleto de lirismo, delicadeza, cor e movimento, elementos que singularizam a escrita de uma das mais novas e talentosas poetas contemporâneas brasileiras.

Em tempos de incerteza e isolamento convocámos (virtualmente) os nossos poetas e lançámos o desafio: dizer, pela própria voz, a sua própria poesia.

Hoje, Alice Sant'Anna diz o poema quando faltou luz de Alice Sant'Anna, publicado pela primeira vez em Dobradura  (7Letras, 2008).




quando faltou luz

quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente




Através do olhar de Alice Sant'Anna o prosaico ganha aspetos singulares, fixando indelevelmente a sua personalidade e visão do mundo.

Aula de Natação reúne poemas das obras Dobradura (7Letras, 2008), Rabo de baleia (Cosac Naify, 2013), Ilha da decepção (independente, 2014), «Ombros caídos» (in Vinhetas, em parceria com Zuca Sardan,  Luna parque, 2015), Pé do ouvido (Companhia das Letras, 2016) e Duas mulheres (Megamíni, 7Letras, 2017)




Em tempos de incerteza e isolamento convocámos (virtualmente) os nossos poetas e lançámos o desafio: dizer, pela própria voz, a sua própria poesia. Hoje é a vez de Daniel Maia-Pinto Rodrigues dizer os (seus) poemas: «Dióspiro» e «Éramos Novos».


Dióspiro

Depois do almoço
quando arrastamos a cadeira
um pouco para trás
uma sonolência morna
entrelaçada de luz
entra pelas janelas
ludibria as cortinas
e difusa poisa no vinho.

É nessa altura que dizemos:
vou comer este dióspiro
antes que apodreça.



Éramos novos
quando pensávamos
que os anos pouco passavam.

No encantamento das pequenas lonjuras
era fácil resistir ao tempo:
o mínimo gesto, um vestido azul
alguém que passa a laranjada
tinham a luz diáfana da perenidade.

Em nós eternizaram-se as noites
de poucas e muitas palavras nos sofás
eternizou-se o lobisomem do quintal
a luz que ilumina o apaziguamento.


Daniel Maia-Pinto Rodrigues nasceu no Porto em julho de 1960. Turquesa  é o seu vigésimo livro.
Turquesa é também a mais recente novidade da coleção «Plural», uma coleção dedicada à poesia em língua portuguesa.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues é um poeta idílico e paisagista, conhecedor da luz e das suas gamas, um promotor do espaço, que envaza ou transvaza a energia da calma, capaz de emoldurar o tempo, e é igualmente um poeta de vincada faceta satírica e jocosa, conjugada com aqueles aspetos.

Turquesa de Daniel Maia-Pinto Rodrigues reúne poemas dos livros Vento (1983), Conhecedor de Ventos (1987), A Próxima Cor (1993), O Valete do Sétimo Naipe (1994), A Sorte Favorece os Rapazes (2001), O Afastamento Está Ali Sentado (2002), Malva 62 (2005), Dióspiro (2007), A Casa da Meia Distância (2010) e Já Passei Por Aqui (2015).


Turquesa teve direção literária de Jorge Reis-Sá,  capa e design de André Letria. A revisão de texto é de Mário Azevedo.

A paginação, impressão e acabamentos da responsabilidade da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Saiba mais detalhes na nossa loja online. Aqui.



Em tempos de incerteza e isolamento convocámos (virtualmente) os nossos poetas e lançámos o desafio: dizer, pela própria voz, a sua própria poesia.
Hoje, Antonio Carlos Secchin diz poesia de Antonio Carlos Secchin.







Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. É Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde lecionou por quase quatro décadas, até 2011. Hoje, é Professor Emérito da instituição.

É também poeta com 10 livros publicados, é ainda autor de outros sete na área do ensaio. Organizou também uma vintena de publicações — antologias, obras reunidas — de alguns dos mais importantes poetas da literatura brasileira, como Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar.

Em 2004, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tornando-se à época o mais jovem membro da agremiação. Proferiu cerca de 500 palestras distribuídas por quase todas as regiões do Brasil e por países de África, América e Europa.

Desdizer, foi publicado pela Imprensa Nacional, em 2018, e congrega toda a produção poética de Antonio Carlos Secchin, poeta que, nas palavras de Ferreira Gullar:

«além de lúcido crítico de poesia, é poeta e de raras e especiais qualidades, numa mescla de lirismo e senso de humor».

Antonio Carlos Secchin contou-nos que quando tinha apenas minutos de vida quando o seu avô materno, português de Évora, profetizou que ele iria  ser escritor. E quis o acaso que nascesse no Dia de Camões. Disse-nos ainda que não tem a pretensão de «unificar as duas datas nacionais» mas gostaria de ver as literaturas portuguesa e brasileira, muito concretamente no campo poético, a descobrirem-se uma à outra. Afinal, são «duas amigas que se desconhecem», referiu o poeta ao Prelo, aquando da entrevista a prospósito do lançamento de Desdizer. Aconteceu na Bibioteca da Imprensa Nacional, em Lisboa, a 11 de maio de 2018. Recorde um pequeno excerto da entrevista.

P — Desdizer está então publicado na coleção «Plural». E António Carlos Secchin é o segundo poeta brasileiro a ver a sua obra a entrar nesta renovada coleção. Foi precedido por Eucanaã Ferraz e sucedido por Alice Sant’Anna. Sente que está em boa companhia? E que a poesia brasileira está bem representada?

ACS — Estou em ótima companhia! Por acaso Eucanaã Ferraz foi meu orientando. Dirigi a tese de doutorado dele sobre João Cabral [Melo Neto] e acompanho a trajetória do Eucanaã desde o seu Livro Primeiro, e todo o resto da sua obra, sobre a qual já escrevi. Ele será talvez o mais português dos atuais poetas brasileiros, pelas amizades que tem aqui e também por um certo lirismo lusitano. No caso da Alice Sant’Anna já se trata de outra de geração, com outro olhar, igualmente uma poesia subtil, bem feita. Sinto-me feliz por ter esses dois nomes junto ao meu na coleção «Plural». Sem esquecer que João Cabral que na década de 1980 teve uma linda edição publicada pela Imprensa Nacional.

P — Refere-se à Poesia Completa (1940-1980).

ACS — Sim, era uma obra com a poesia reunida do João Cabral e contava com um prefácio de Óscar Lopes.

P — Para si que outros poetas brasileiros mais se evidenciam neste ainda jovem século XXI?

ACS — Essa é uma pergunta um pouco embaraçosa.

P — Gostava que me respondesse.

ACS — Embaraçosa porque corro o risco de me esquecer de alguém. Manuel Bandeira, poeta com grande senso de humor, não respondia a perguntas, por exemplo, sobre escolha de nomes para antologias. Ele organizou várias, da poesia romântica, da poesia parnasiana, da simbolista, da pré-modernista, e um dia o convidaram a organizar uma antologia da poesia contemporânea. Ele recusou-se: «Se eu organizar uma antologia de poesia contemporânea, vou fazer 300 inimigos e vou ter 50 mal agradecidos!» (risos)

P — Então esqueçamos os nomes e diga-me: a seu ver, para onde caminha, quais são as tendências da poesia brasileira? Um movimento? Uma escola?

ACS — Iniciei-me, na década de 1970, na chamada poesia marginal ou geração do mimeógrafo, que deu fama a Ana Cristina César, Chacal e outros. Havia uma atmosfera de repressão política no Brasil mas liberdade para a prática da «contracultura». Repressão política e libertação de costumes. Uma coisa não obriga a outra. Uma sociedade permissiva mas sufocada politicamente. Para a maioria dos poetas dessa época a poesia era uma experiência direta de vida, algo espontâneo, que passava longe do saber académico… Nunca me identifiquei com esta ideia de espontaneidade porque sempre achei que toda a espontaneidade é fabricada, é construída. A espontaneidade enquanto tal não pode ser uma categoria a ser necessariamente valorizada. O que noto na geração mais recente é o contrário, trata-se de geração muito letrada, com formação universitária, e que tem muito presente a técnica, o fazer do verso. Portanto, considero a geração contemporânea mais equipada do ponto de vista da consciência laboral do verso. Por outro lado, estar equipado ou estar imerso no conhecimento universitário hoje , para boa parte dos poetas (em que não me incluo) não significa um compromisso com a tradição poética.


Na apresentação de Desdizer, (da esquerda para a direita) Ronaldo Cagiano, Duarte Azinheira, Antonio Carlos Secchin e Jorge Reis-Sá.


P — Ao lermos o Secchin dos primeiros anos, dos primeiros versos, apercebemo-nos de que existe uma clara relação, talvez uma homenagem, à tradição poética brasileira.

ACS — É verdade! E até à tradição poética portuguesa. Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Camões…

P — Aqui em Desdizer encontramos um poema intitulado «A Fernando Pessoa» e outro, «Cantiga», neste último pressentem-se os ecos de Camões. Que outros autores portugueses admira?

ACS — Cesário Verde é um poeta que eu gostaria de sequestrar para a literatura brasileira. Nós não temos nada no Brasil de equivalente. Ele é parnasiano, é realista, é irónico. A geração pós Fernando Pessoa teve um obstáculo, que foi escrever depois de Fernando Pessoa, é algo muito difícil. Admiro Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen — sobre quem escrevi recentemente —, Herberto Helder, Pedro Tamen, António Ramos Rosa, Gastão Cruz, Nuno Júdice, Inês Fonseca Santos, David Mourão-Ferreira, Fiama [Pais Brandão], Al Berto… e ainda faltam alguns. O que eu não quis fazer no tocante ao Brasil, indicar nomes, você conseguiu que eu fizesse em relação a Portugal! (risos)

Para ler esta entrevista na íntegra, clique aqui.
https://www.instagram.com/p/B-AHqR_pDDF/?igshid=5ppd8ebo5vjf&fbclid=IwAR3dHxziGMj-aXqIlCEx-WX4PVs1M4p-q9MHHV17bZ6suFfAv8KV7LHY7VA

Em tempos de incerteza e isolamento convocámos (virtualmente) os nossos poetas e lançámos o desafio: dizer, pela própria voz e na primeira pessoa, a sua própria poesia.

(clique na imagem para ver e ouvir)

Hoje trazemos a este espaço um poema de Alexandre Sarrazola, dito por Alexandre Sarrazola.

https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=102968

Alexandre Sarrazola recebeu a menção honrosa da 1.ª edição do Prémio IN/Vasco Graça-Moura, pelo trabalho Fade Out (dissolve), uma obra que o autor classifica como sendo «um livro de fecho de uma trilogia de imagens».

Fade Out, março 2016



Sobre a Plural:

Criada em 1982 por Vasco Graça Moura, então administrador responsável pelo pelouro editorial na Imprensa Nacional-Casa da Moeda [INCM], a coleção Plural acolheu, até ao fecho daquela década, obras de novos mas já promissores autores, que tiveram nela a sua primeira oportunidade de publicação. Entre os títulos publicados encontram-se obras de ficção, ensaio, dramaturgia e mesmo artes plásticas, mas sobretudo de poesia. A Imprensa Nacional assumia deste modo o papel de serviço público que lhe cabe desde a sua fundação, neste caso dando oportunidade aos novos.

Com a criação do Prémio Imprensa Nacional|Vasco Graça Moura, em 2015, a editora pública decidiu também fazer reviver esta emblemática coleção e o essencial do seu objetivo. É desígnio da nova «Plural» publicar as obras poéticas distinguidas no âmbito do Prémio, mas também outros títulos de indubitável qualidade que não encontraram ainda a justa oportunidade de publicação ou que são de acesso difícil para o público português.

Em 2015 a Plural renasceu como espaço dedicado à poesia do grande universo da língua portuguesa — espaço de liberdade, espaço de literatura, espaço de difusão, espaço de pluralidade — homenageando a memória plural do renascentista português dos séculos xx e xxi que foi Vasco Graça Moura. E continua.