Turquesa, de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, é a mais recente novidade da coleção «Plural». O volume reúne os poemas dos livros Vento (1983), Conhecedor de Ventos (1987), A Próxima Cor (1993), O Valete do Sétimo Naipe (1994), A Sorte Favorece os Rapazes (2001), O Afastamento Está Ali Sentado (2002), Malva 62 (2005), Dióspiro (2007), A Casa da Meia Distância (2010) e Já Passei Por Aqui (2015).

Turquesa conta ainda com um longo e brilhante Prefácio, «Excentricidade e Extemporaneidade da Poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues», de autoria do também poeta Rui Lage.

A condição de Daniel Maia-Pinto Rodrigues na poesia portuguesa é uma condição excêntrica e extemporânea. Excêntrica por referência ao centro gravítico da Literatura enquanto instituição e fenómeno sociológico. Extemporânea porque desancorada da historicidade, a começar pela história da poesia; porque existe nos seus próprios termos, deslaçada das aporias e disforias daquilo que apelidamos de contemporaneidade. Dessa excentricidade e dessa extemporaneidade brota o seu efeito de estranhamento; e, porventura, o seu salvo-conduto para o porvir.

Poeta extraviado do território onde atuam as instâncias legitimadoras da instituição literária — ou o que resta delas —, dissociado de qualquer genealogia ou corrente estética reconhecível, grupo ou publicação coletiva, alheado de polémicas e querelas (hoje, de resto, praticamente extintas), a sua «fortuna» editorial tem oscilado entre o artesanal e o marginal, com a ressalva das defuntas edições Quasi, onde surgiu, em 2002, a sua primeira recolha antológica (O Afastamento Está Ali Sentado), e, em 2007, a sua obra poética completa (Dióspiro. Poesia Reunida: 1977-2007). Essas duas publicações, a que se vem juntar a presente antologia, constituem o zénite de um percurso iniciado com Vento, em 1983, e que abarca uma dezena de livros. Face a essas duas recolhas, a crítica fez-se desentendida ou, inábil para lidar com a sua singularidade, caiu no equívoco. Assim tem sido até hoje.

Rui Lage in Prefácio


Daniel Maia-Pinto Rodrigues nasceu no Porto em julho de 1960. Turquesa  é o seu vigésimo livro. O livro A Próxima Cor foi distinguido com o 1.º Prémio Nacional Foz Côa Cultural em 1986 e obteve a Menção Honrosa / Novos Valores da Cultura, atribuída pelo Ministério da Educação e Cultura, segundo o parecer do júri constituído por Fiama Hasse Pais Brandão, Vasco Graça Moura e José Fernando Tavares, em 1988.

O volume Dióspiro, Poesia Reunida (1977-2007), com um ensaio de Rui Lage, foi considerado, pela Universidade do Minho, o melhor livro de poesia editado em Portugal no ano de 2007. Mário Cláudio, Rosa Maria Martelo, Pedro Eiras, Manuel António Pina e Rui Lage escreveram, em prefácios e posfácios, sobre a sua obra.  Daniel Maia-Pinto está representado em mais de trinta antologias literárias, diversas das quais publicadas pelas principais editoras portuguesas.


CONTO DE INVERNO

Era no inverno
e mais do que no inverno, no passado.
Andando um tanto ao acaso
dão connosco pela frente
os bosques da América do Norte.
O inverno, como tendo em conta o nosso esforço
não se nos apresenta rigoroso.
Por aí se vê que a natureza
apesar de bastante fria
continua acessível a um europeu do sul.
Dir-vos-ei apenas que cheguei era já noite
e dispenso-vos as minudências
as atitudes mais ou menos adivinháveis —
apresentações, perguntas, pequenas curiosidades —
até porque não as houve em demasia
e avançava já para a esplêndida sensação
proporcionada pela iminência do alce.
Não querendo carregar nas teclas do fantástico
sublinharia porém o tremeluzir do acampamento
à luz da fogueira, a disposição das personagens
a musicalidade de ralos e de mochos
A noite era imensa entre o arvoredo
como nunca mais o veio a ser
e a lua refletir-se-ia por certo
em algum charco que eu haveria de ver
uns determinados dias depois.
O acampamento era irreal
de tão perfeito nas suas premissas
e alguém que se afastasse
ainda que impercetivelmente
dava a quem o visse
a inexplicável certeza
de toda uma razão de existir.
Um qualquer arfante perigo encantatório
passeava-se atávico
na escuridão do bosque de coníferas.
Adormeci ao som das brasas
derretendo a gordura dos ossos do corço
e sonhei com o meu tempo
que estaria, sem que bem me apercebesse
para advir em tempos de máquinas
e de capacidades intelectuais proveitosas.

Turquesa, págs. 131 e 132


Turquesa teve direção literária de Jorge Reis-Sá,  capa e design de André Letria. A revisão de texto é de Mário Azevedo. A paginação, impressão e acabamentos da responsabilidade da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.




Tendo por base os livros da icónica coleção «O Essencial sobre...» este programa, da responsabilidade da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, em parceria com a rádio pública, Antena 2, pretende divulgar e preservar na memória coletiva grandes nomes da nossa história (cultural, política, social e artística).


O episódio n.º 9 é dedicado a Cesário Verde e pode ouvi-lo aqui.

A Voz dos Poetas regressa à Biblioteca da Imprensa Nacional já no próxima 2.ª feira, dia 20 de janeiro, pelas 18h30 com Lia Gama e Jorge Silva Melo (Artistas Unidos) a dizerem a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), figura maior das letras portuguesas do século XX.

O ciclo de leituras de poesia A Voz dos Poetas tem entrada livre (condicionada à capacidade da sala) e resulta da parceria estabelecida entre os Artistas Unidos e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Biblioteca da Imprensa Nacional
Rua da Escola Politécnica, 135, 1250-100 Lisboa



Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



Criada em 1982 por Vasco Graça Moura, então administrador responsável pelo pelouro editorial na Imprensa Nacional-Casa da Moeda [INCM], a coleção Plural acolheu, até ao fecho daquela década, obras de novos mas já promissores autores, que tiveram nela a sua primeira oportunidade de publicação. Entre os títulos publicados encontram-se obras de ficção, ensaio, dramaturgia e mesmo artes plásticas, mas sobretudo de poesia. A Imprensa Nacional assumia deste modo o papel de serviço público que lhe cabe desde a sua fundação, neste caso dando oportunidade aos novos.

Com a criação do Prémio Imprensa Nacional|Vasco Graça Moura, em 2015, a editora pública decidiu também fazer reviver esta emblemática coleção e o essencial do seu objetivo. É desígnio da nova «Plural» publicar as obras poéticas distinguidas no âmbito do Prémio, mas também outros títulos de indubitável qualidade que não encontraram ainda a justa oportunidade de publicação ou que são de acesso difícil para o público português.

Em 2015 a Plural renasceu como espaço dedicado à poesia do grande universo da língua portuguesa — espaço de liberdade, espaço de literatura, espaço de difusão, espaço de pluralidade — homenageando a memória plural do renascentista português dos séculos xx e xxi que foi Vasco Graça Moura. E continua.  Conheça os títulos da «Plural» na nossa loja online. Aqui.

Pedro Tamen nasceu em Lisboa em 1934 e estudou Direito na Universidade de Lisboa.

Entre 1958 e 1975 foi diretor da Editora Moraes e depois, até 2000, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi também dirigente cineclubista, professor, diretor-adjunto de uma revista, crítico literário num semanário, e tradutor literário. Pedro Tamen traduziu, ente outros, Imitação de Cristo, dos Fioretti de S. Francisco, Cantos de Maldoror, de Breton, e autores como Sartre, Foucault, Camilo José Cela, Georges Bataille, Georges Pérec, Flaubert e Gabriel García Márquez.

A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias, foi, em 2018, completamente reunida na edição de Retábulo das Matérias, da Imprensa Nacional. Os seus poemas estão traduzidos e publicados em catorze línguas.

Recorde-se ainda que Pedro Tamen foi distinguido com o Prémio D. Diniz/Casa de Mateus, em 1981, o Grande Prémio de Tradução Literária, em 1990, o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, em 1991, o Prémio Bordallo, da Casa da Imprensa, em 2000, e no ano seguinte, o Prémio P.E.N. de Poesia, em 2001.

Pedro Tamen recebeu ainda o Prémio Luís Nava, em 2006, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, em 2010, e o Prémio Literário Casino da Póvoa, no ano seguinte. Em 1993, o Governo português condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.


Vou a Praga à boleia, meu amor,
furto fortuito de mercês pensadas
e cingidas a peito noutros anos
— agora encaixilhadas a bolor
de tanto serem tidas e molhadas
de olhos cativos e samaritanos.

Atrás de nós ficámos na viagem
longa de mais, de menos, repetida
conjura contra um espaço e o seu dolo,
e mais se desbotou a nossa imagem
na foto de turista e minha ferida
que levarei agora a tiracolo.

E arrasto na cidade o tricolor
pelo da barba, e molho a tinta pura
a novidade alada que quis dar.
Mas sei demais, mulher, e onde for
tu lá estarás fatal fada madura,
maçã de vento e só neste pomar

que somos nós por mais que não queiramos.
E assim está o teu corpo sobre o verão
como seu sol veraz e seu destino
onde afinal deitados nos queimamos.
E a busca acompanhada desta mão
traz-nos o ar correto e já salino

do mar que atravessado foi deveras.
Por isso não vou só se quiser ir,
nem tu já poderias, poderás.
Partir é isto mesmo das esperas
e embalar nos ouvidos a zumbir
o som pronunciado de outra paz.

Vamos a Praga os dois a pé-coxinho.
Eu brinco no teu peito, tu nos dedos
de mim calhados com que te encadeio.
Temos nozes e pão, agudo vinho,
bocas de carne, matas sem enredos,
o tempo todo à frente, e o do meio.

in Pedro Tamen, Retábulo das Matérias, Lisboa, Imprensa Nacional, 2018, pp. 405,406




Para ser lido mais tarde

Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar
quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando
já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres
quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho
para ti será o começo de tudo
Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda
Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante
Mas para mim será já tão frio e já tão tarde
E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara




Homem das artes e das letras, Mário Dionísio (1916-1993), foi um forte opositor à ditadura de Salazar e Caetano.

Entre 1936 e 1988 publicou poemas (reunidos na coleção «Plural» da Imprensa Nacional em 2016), contos (O Dia Cinzento, 1944, reescrito em 1967; Monólogo a Duas Vozes, 1986; A Morte É para os Outros, 1988) e um único romance, Não Há Morte nem Princípio (1969). Uma escrita em que o rompimento com a escrita tradicional é evidente.

Autor de inúmeros ensaios, muitos dos quais sobre pintura, de que o principal é A Paleta e o Mundo (1956-1962), desde sempre escreveu em jornais e revistas (crítica literária e de artes plásticas, crónicas sobre assuntos vários). Prefaciou obras de Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, José Cardoso Pires, Alves Redol.

Nos ensaios, artigos, prefácios é central a questão do realismo, dos novos realismos, da relação entre arte e sociedade.

Desde muito cedo, pintou. Organizou as primeiras Exposições Gerais de Artes Plásticas, onde expôs até 1954. Mas a sua primeira exposição individual de pintura realizou-se apenas em 1989, aos 73 anos. Abandonaria a escrita. No fim da vida só pintava.

Licenciado em Filologia Românica, foi professor toda a vida: de Português e de Francês no ensino secundário e, já depois do 25 de Abril, de Técnicas de Expressão do Português na Faculdade de Letras de Lisboa.

Conta tudo isto numa pequena Autobiografia (1987).






Jorge Silva Melo e os Artistas Unidos regressam à Biblioteca da Imprensa Nacional já no próximo dia 21 de janeiro, segunda-feira, pelas 18h30.

A primeira leitura do ano na Sala da Biblioteca da Imprensa Nacional será dedicada aos poemas de um dos maiores românticos nacionais: Almeida Garrett.

Figura nuclear no âmbito literário português, escreveu, por exemplo, Frei Luís de Sousa, Viagens Na Minha Terra ou Folhas Caídas – obras que muito provavelmente fazem ou fizeram parte da sua biblioteca.

E se Garrett teve um papel determinante para a literatura nacional, também o teve para outras artes. Muito concretamente para o Teatro. Garrett está na génese do Conservatório Nacional, do Teatro Nacional Dona Maria II, e foi também um dramaturgo.

«Garrett encerrava em si, às vezes, comportamentos muito teatrais. Vivia muito o teatro. Diz algures, num texto ainda da juventude, que quando imaginava uma ficção, uma história, a via realizada teatralmente. «Eu converto em teatro qualquer situação para mim espicaçante.» Ele diz isto. No teatro, Garrett combateu claramente os estereótipos em prol de uma realização, por parte dos atores, mais natural, mais próxima do que era a prática social. Como orientador do Conservatório e como Inspetor-geral dos Teatros lutou para que o Teatro se aproximasse da vida, para que falasse pelos temas e pelas formas ao espectador coetâneo. (…) Há textos muito interessantes, que constam do espólio. Há, por exemplo, o manuscrito de O Cativo de Fez, de Silva Abranches — uma peça muito retórica, escrita em tiradas que não convenciam ninguém, que não se aproximava da linguagem comum e que não agradava a Garrett — para a qual propôs correções. São muito interessantes todos esses textos onde Garrett, no fundo, faz censura teatral. (...) Garrett fazia-o para melhorar o texto de teatro, valorizando muito o espetáculo. Porque, efetivamente, o teatro permite a conjugação de vários tipos de linguagem. Desde a montagem do cenário, à movimentação cénica, aos gestos, ao tom de voz, etc. O papel de Garrett como militante e educador de público e autores foi precisamente nesse sentido. »

Ofélia Paiva Monteiro (m. 2018),
coordenadora das Edições  Críticas da Obra de Almeida Garrett 
da Imprensa Nacional, em entrevista ao PRELO.

Promete a primeira sessão do ano dos Artistas Unidos na Biblioteca da Imprensa Nacional!





Vitorino Nemésio foi poeta durante 60 anos e nunca pôs de lado a poesia — atividade ininterrupta entre 1916 e 1976. É precisamente com a poesia que se inaugurara a nova coleção «Obra Completa de Vitorino Nemésio», numa profícua — e simbólica — parceria entre as editoras Companhia das Ilhas, sediada nas Lajes do Pico, e a Imprensa Nacional.

Esta nova coleção, simples, sem aparato de notas e rigorosa do ponto de vista do texto, estrutura-se em quatro séries: Poesia, Teatro e Ficção, Crónica e, finalmente, Ensaio. Esta é uma forma de mostrar a obra ampla e multifacetada que Nemésio nos deixou.

A partir da próxima sexta-feira, dia 23, e até dia 30 de novembro vamos publicar, uma pergunta por dia, sobre a vida e obra de Vitorino Nemésio. A pessoa tiver mais respostas certas ganha um exemplar de Poesia 1916-1640 !

Mas atenção: as respostas não podem estar visíveis! Envie-nos todas ao mesmo tempo ou uma de cada vez, por email ou mensagem privada para a nossa conta do facebook.

Esteja atento!



As perguntas:

dia 23 - Em 1916, aos 15 anos de idade, Vitorino Nemésio era um jovem aluno do liceu de Angra do Heroísmo. É neste ano que publica o seu primeiro livro de poemas «Canto Matinal». O então jovem poeta quisera chamar-lhe «Canto Vesperal». Foi a conselho de um professor que alterou o título. Como se chamava este professor?

dia 24 - O poema «Aquele cais ali, agudo e nu», de Vitorino Nemésio, foi publicado pela primeira vez em 1940. Em que livro?

Dia 25 - Em 1933, Vitorino Nemésio é contratado pela Faculdade de Letras de Lisboa, tendo-se doutorado, no ano seguinte. Qual o título da sua dissertação de doutoramento?







Os Artistas Unidos continuam a dar voz aos poetas na Biblioteca da Imprensa Nacional.

A próxima sessão de «A Voz dos Poetas» é já na próxima segunda-feira, dia 12 de novembro, pelas 18h30. E esta é uma sessão especial: Jorge Silva Melo vai ler um poeta muito caro a todos nós. Nem mais: o protagonista desta sessão será Luís Vaz de Camões (1524-1580), figura ímpar da Literatura em Língua Portuguesa.

Autor de uma das mais importantes obras da Literatura Portuguesa, Os Lusíadas, Camões escreveu também poemas líricos, versos bucólicos, comédias e sonetos, entre eles o famoso «Amor é fogo que arde sem se ver».

Poeta erudito e popular, humanista viajado e aventureiro, Camões é símbolo do país que o celebra todos os anos a 10 de junho. Sobre ele afirmou Jorge de Sena:

«Se pouco sabemos de Camões, biograficamente falando, tudo sabemos da sua persona poética, já que não muitos poetas em qualquer tempo transformaram a sua própria experiência e pensamento numa tal reveladora obra de arte, como a poesia de Camões é».

Não perca esta récita!

Programa: A Voz dos Poetas
Textos: Luís Vaz de Camões
Leitura de poesia: Jorge Silva Melo | Artistas Unidos
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Rua da Escola Politécnica, n.º 135, Lisboa)
Data: 12 de novembro 2018
Horário: 18:30 h



Começa em cheio a rentrée 2018/2019 da Biblioteca da Imprensa Nacional!

Poesia de Cesário Verde dita pelos Artistas Unidos, na voz do incontornável Jorge Silva Melo.

Parnasiano, realista e irónico, Cesário Verde — poeta que morreu cedo, aos 31 anos de idade — é considerado por muitos decisivo para a modernidade literária portuguesa e para a poesia que seria feita em Portugal no século XX.

A enfeitar uma das paredes da estação de metro da Cidade Universitária, em Lisboa, está provavelmente aquele que é um dos seus versos mais conhecidos: «Se eu não morresse, nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!», retirado do poema «Sentimento dum Ocidental».

Lisboa povoa toda a poesia de Cesário Verde e poucos foram os poetas que conseguiram pintar um quadro tão vivo e contrastado da cidade das últimas décadas do século XIX.

Dia 03 de setembro, pelas 18h30, pode escutar a poesia de Cesário Verde em pleno coração alfacinha, na bonita sala da Biblioteca Nacional.

Se quiser, poderá também dar um saltinho às nossas lojas para comprar O Livro de Cesário Verde, publicado na nossa «Biblioteca Fundamental da Literatura Portuguesa», uma coleção que visa salvaguardar o património nacional, através da publicação de um conjunto alargado de títulos da literatura portuguesa


Programa: A Voz dos Poetas
Textos: Cesário Verde
Leitura de poesia: Jorge Silva Melo | Artistas Unidos
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
Data: 3 setembro 2018
Horário: 18:30 h


Um pedido de silêncio, uma guitarra portuguesa, um poema, uma voz poderosa, por vezes um xaile e muito, muito sentimento.  Símbolo de um país, de um povo e de uma língua, o fado pertence já ao erário do mundo. Foi a primeira expressão artística a ser declarada Património Imaterial da Humanidade em Portugal (2011), pela UNESCO.

O fado é hoje uma música do mundo que é portuguesa.

Cantam-se as tristezas, as saudades, as dores, também as alegrias, e os encontros e desencontros da vida de todos os dias. 
Poetas Populares do Fado Tradicional é uma recolha criteriosa de poetas populares da cena fadista, levada a cabo por Daniel Gouveia e Francisco Mendes, para incorporar a coleção da Imprensa Nacional « Biblioteca do Fado». 

Aqui uma pequena amostra.


Cena fadista

Foi na Travessa da Palha,
que o meu amante, um canalha,
fez sangrar meu coração;
trazendo ao lado outra amante,
vinha a gingar, petulante,
em ar de provocação.

Na taberna do Friagem,
entre muita fadistagem,
afrontei-os sem rancor;
porque a mulher que trazia
com certeza não valia
nem sombra do meu valor.

A ver qual tinha mais brio,
cantámos ao desafio
eu e ess’outra qualquer;
deixei-a a perder de vista,
provando ser mais fadista,
mostrando ser mais mulher.

Foi uma cena vivida,
de muitas da minha vida
que não se esquecem depois;
só sei que de madrugada,
após a cena passada,
voltámos a casa os dois.
Gabriel de Oliveira
p.24

A voz de Portugal

Ter um fado igual ao meu
Ó Coimbra quem te dera
Na Mouraria nasceu
Teve por mãe a Severa

Fado lindo do Mondego
Cantado por noite fora
À alma tira o sossego
Que de tanto ouvi-lo chora

O de Lisboa é mais triste
É mais castiço, mais faia
A alma não lhe resiste
Ouvindo-o logo desmaia

Por mim ou outro cantado
Na Mouraria ou Choupal
São lindos todos os fados
São a voz de Portugal
Fernando Teles
p.34

Há um manifesto paralelismo entre a letra que se segue e a famosa canção Olhos Castanhos, celebrizada por Francisco José:

Cor dos olhos

Dizem que os olhos leais
São os castanhos? Pois bem
Conheço uns olhos fatais
Que são castanhos também!

Olhos negros, negra cruz
Quem o disse, com certeza
Não vê que a noite sem luz
Também tem sua beleza

Olhos azuis, falsidade!
Errou quem isto escreveu
Nunca pode haver maldade
Nos olhos da cor do Céu!

Com os olhos verdes, cautela!
Ninguém se deixe embalar
Lembram o Mar! E a procela
É irmã gémea do Mar!

Não há resposta acertada
Que traduza bem a cor
Dos olhos da nossa amada
Se andamos cegos de amor!
Domingos Gonçalves Costa
p.207

As tuas mãos guitarrista

São tuas mãos, guitarrista
Que as cordas fazem vibrar
Que me fizeram fadista
E não deixam que resista
Ao desejo de cantar

A guitarra quer-te tanto
Tem por ti tal afeição
Que te deu consentimento
P’ra desvendares o tormento
Que guarda no coração

Em teu peito tem guarida
Em tuas mãos seu penar
Se tu não lhe desses vida
Ficava p’ra ali esquecida
E não voltava a trinar

E se a tens abandonado
Não seria mais fadista
Mesmo que fosse cantado
Morria com ela o Fado
Sem tuas mãos, guitarrista.
Maria Manuel Cid
p.228



São 217 poemas compostos pelos autores:

Carlos Harrington (1870-1916) Avelino de Sousa (1880-1946) Gabriel de Oliveira (1891-1953) Fernando Teles (1891-1958) Silva Tavares (1893-1964) Linhares Barbosa (1893-1965) Henrique Rego (1893-1963) Frederico de Brito (1894-1977) António Amargo (1895-1933) Amadeu do Vale (1898-1963) Armando Neves (1899-1944)
Carlos Conde (1901-1981) Clemente Pereira (1903-1986) João da Mata (1906-1947) Radamanto (1908-1972) Conde de Sobral (1910-1969) Domingos Gonçalves Costa (1913-1984) Artur Soares Pereira (1921-2011) Maria Manuel Cid (1922-1994) Lopes Victor (N. 1922) Moita Girão (1923-2013) António Vilar da Costa (1924-1988) Artur Ribeiro (1924-1988) João Dias (1926-1979) Jorge Rosa (1930-2001) Isidoro d’Oliveira (1934-2013) Manuel Andrade (1944-1966)




Celebramos hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
O país comemora a sua festa nacional. Festejamos a nossa história e a nossa língua, olhamos de frente para os reptos do nosso presente, para os desafios do nosso futuro. Homenageamos a diáspora portuguesa mundo fora. E fazemo-lo celebrando Camões. Afinal, somos um país de poetas.

Por isso mesmo o Prelo decidiu celebrar um grande poeta pela mão de outro grande poeta: Miguel Torga – o justo primeiro vencedor do mais alto galardão atribuído em Língua Portuguesa. Nem mais: o Prémio Camões. Estávamos em 1989. Antes disto, em 1987, Torga foi convidado a deslocar-se a Macau, por ocasião das celebrações do 10 de Junho, para fazer uma conferência sobre o autor d’Os Lusíadas, no Leal Senado. Mais tarde, viria a publicar essa conferência no vol. XV do Diário, tinha precisamente por título «Camões». Aqui um pequeno excerto:

O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida. A paixão tolda-nos a vista. Daí a espécie de obscura inocência e actuamos na História. A poder e a valer, nem sempre temos consciência do que podemos e valemos. Hipertrofiamos provincianamente as capacidades alheias e minimizamos maceradamente as nossas, sem nos lembrarmos sequer de que a criatura só não presta quando deixou de ser inquieta. E nós somos a própria inquietação encarnada. Foi ela que nos fez transpor todos os limites espaciais e conhecer todas as longitudes humanas.
Quatrocentos anos depois de a termos alargado até este Extremo Oriente, estamos aqui a despedir-nos de um recanto da pátria e a evocar Camões. Não, como disse, em termos formais, mas em termos factuais. É uma definitiva meta cronológica que irrevogavelmente assinalamos. E, numa circunstância tão significativa, tudo quando disséssemos e fizéssemos à revelia do maior de todos os portugueses seria lamentavelmente negativo. Sem a bênção do seu nome e o critério da sua universalidade, nem daríamos um penhor válido de nós, nem poderíamos ter a certeza de voltar. De voltar eternamente.

Macau, 10 de Junho de 1987
(in Diário, vols. XIII a XVI, D. Quixote)


Hoje, no Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas recordamos também alguns dos versos que Miguel Torga dedicou a esta figura maior da língua, da cultura e da literatura portuguesas, que hoje celebramos: Luís Vaz Camões.

Camões

Nem tenho versos, cedro desmedido

Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza.

Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto,
Chega aos teus pés e como que arrefece.
Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói, é dar-te um só poder.
Poeta de um império que era louco,
Foste louco a cantar e louco a combater.
Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e professo,
Única nau do sonho insatisfeito
Que não teve regresso!

Na Gruta de Camões


Tinhas de ser assim:

O primeiro
Encoberto
Da nação.
Tudo ser bruma em ti
E claridade.
O berço,
A vida,
O rastro
E a própria sepultura.
Presente
E ausente
Em cada conjuntura
Do teu destino.
Poeta universal
De Portugal
E homem clandestino


Miguel Torga
In Antologia Poética, D. Quixote



Título: Coreografando Melodias no Rumor das Imagens
Autor: Mário Avelar
Apresentação: Antonio Sáez Delgado
Coleção: Plural
Edição: Imprensa Nacional
Data: quinta-feira, 14 de junho
Horário: 18:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Livro dentro de outros livros, Coreografando Melodias No Rumor Das Imagens revela, de forma intimista e contemplativa, a nostalgia de momentos diversos advindos de encontros escorados nas diferentes linguagens artísticas ou de meros quotidianos a que o poeta imprime memórias e significados que os transmutam.

Mário Avelar nasceu em Lisboa em 1956. Professor catedrático de Estudos Ingleses e Americanos, publicou os seguintes livros de ensaios: América — Pátria dos Heróis (1994), Sylvia Plath — O Rosto Oculto do Poeta (1997), História(s) da Literatura Americana (2004), Ekphrasis — O Poeta no Atelier do Artista (2006), O Nascimento de Uma Nação — Nas Origens da Literatura Americana (2008), O Essencial sobre William Shakespeare (2012), O Essencial sobre Walt Whitman (2013). É autor dos romances: Pentâmetros Jâmbicos (2008) e Inveja — Uma Novela Académica (2010). A sua poesia reunida é publicada pela Imprensa Nacional sob o título Coreografando Melodias no Rumor das Imagens (2018).


Por: Tânia Pinto Ribeiro

Se fosse uma canção de Bossa Nova, pela melodia, seria a icónica Manhã de Carnaval — a canção mais famosa de Luiz Bonfá e de Antônio Maria, eternizada nos ecrãs de cinema, em Orfeu Negro. A atentar à letra, seria O Quereres, de Caetano Veloso, uma canção toda feita de falsas antíteses. E se a sua vida desse um filme escolheria Charles Chaplin para o realizar — foi o primeiro nome que lhe veio à cabeça. Mas, é sabido, a vida não obedece aos condicionais. Isso é coisa da gramática.

Tinha apenas minutos de vida quando o avô materno, português de Évora, profetizou que o neto seria escritor. E quis o acaso — «tudo na vida é o acaso» — que nascesse no Dia de Camões. Mas Antonio Carlos Secchin, poeta, ensaísta, crítico literário, professor de literatura e um dos imortais da Academia Brasileira de Letras não tem a pretensão — apesar «da sua aspiração das grandezas» — de «unificar as duas datas nacionais». Mas gostaria de ver as literaturas portuguesa e brasileira, muito concretamente no campo poético, a descobrirem-se uma à outra. Afinal, são «duas amigas que se desconhecem». Por exemplo, Manuel António Pina é «inteiramente desconhecido» no Brasil, mas Antonio Carlos Secchin deu-lhe o seu voto em 2011 — ano em que Manuel António Pina recebeu o Prémio Camões.

Se pudesse, Antonio Carlos Secchin gostaria de raptar Cesário Verde para a literatura brasileira. «Nós não temos nada no Brasil de equivalente. Ele é parnasiano, é realista, é irónico». À mesa dos deuses sentaria Fernando Pessoa, Camões, Mário de Sá-Carneiro e Antero de Quental — de quem possui as primeiras edições assinadas. Dos mais recentes, Secchin admira Sophia e Eugénio de Andrade e também Gastão Cruz, Nuno Júdice, Inês Fonseca Santos, E. M. Melo e Castro, «na sua linha mais experimental», Fiama Pais Brandão, Al Berto, entre muitos outros.

No campo académico, refere Alva Teixeiro, Aparecida da Silva, Abel Barros Baptista, Vania Chaves e Arnaldo Saraiva como os principais mestres portugueses em Literatura Brasileira. Na inversa, cita, entre outras, as figuras icónicas de Cleonice Berardinelli, «viva nos seus 102 anos», e de Massaud Moises, ambos fulcrais para os estudos da Literatura Portuguesa no Brasil.

Antonio Carlos Secchin pensou em estudar, a fundo, o autor de O Ateneu, Raul Pompeia, mas acabou por se especializar no pernambucano João Cabral de Melo Neto eternizado pela sua Morte e Vida Severina. Depois de muitas páginas escritas e de 30 anos de muita pesquisa, em 2014, Secchin lançou aquele que considera ser o seu «livro testamento» em matéria cabralista: João Cabral: Uma fala só lâmina, um livro com quase 500 páginas. Depois disto anunciou a sua reforma em João Cabral. Mas será que Cabral é um assunto mesmo arrumado? «Sempre digo que é e as pessoas nunca permitem que o seja», desabafa. Arrumada está a questão do Acordo Ortográfico de 1990 no Brasil, onde «foi aceite pacificamente e não causou confusão».

Quanto à poesia, diz-nos, que esta fala para cada vez menos pessoas, o que «do ponto de vista da difusão é a sua tragédia, do ponto de vista da autonomia é a sua glória». Para Secchin o poeta é «uma ilha cercada de poesia alheia por todo o lado». E o crítico também: cercado por todos os discursos que o banham. A diferença é que o poeta está «absolutamente livre diante da página em branco». Já o crítico pode ir para qualquer lugar mas está, à partida, «com o espaço predeterminado». Esse espaço é a palavra do outro. Entre julgar ou compreender uma obra, Secchin prefere a via da «compreensão». Até porque «a vida é muito curta para perdemos tempo com obras que nós achamos ruins».

Diz que «todas as palavras combinadas são passíveis de análise» mas ressalva: «letra é uma coisa poema é outra». E, neste sentido, Vinicius foi um grande poeta mas «como letrista escreveu textos, na média, de nível abaixo dos que fez como poeta».

Antonio Carlos Secchin diz-se «imantado» pela Literatura. E foi ela que o trouxe a Portugal, em Maio de 2018 — como de todas as outras vezes. Desta vez veio também para tomar posse na Academia das Ciências de Lisboa — como correspondente brasileiro — e para percorrer os alfarrabistas, de que tanto gosta, ou ir até à a Feira da Ladra, em pleno coração alfacinha — o lugar onde sempre «vingamos dum pouco desse tempo que morreu», como diz a letra de Ary dos Santos.

Por ser um «apaixonado por livros», Secchin é tido como um dos principais bibliófilos brasileiros. Eucanaã Ferraz dedicou-lhe um poema, precisamente: «Os Bibliófilos». Uma paixão que o fez descobrir volumes raros, alguns já considerados perdidos para sempre. Descobriu, por exemplo, Os 25 Poemas da Triste Alegria, de Carlos Drummond de Andrade, ou Espectros da Cecília de Meireles, um livro de 1919, que estava desaparecido há mais de 80 anos. «O livro escolhe as mãos em que quer parar!», diz.

Antonio Carlos Secchin, esteve a 11 de maio na Biblioteca da Imprensa Nacional para lançar Desdizer, um livro que dedica à mãe, que, conta, foi quem lho encomendou. «Felizmente ela nunca me pediu um livro de ficção». A cerimónia pública contou com a apresentação de Ronaldo Cagiano e com  as presenças do Ministro da Cultura Português, Luís de Castro Mendes, e do Embaixador Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, Representante Permanente do Brasil junto à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Desdizer — o título é uma provocação — está agora publicado na renovada coleção «Plural» da Imprensa Nacional, coordenada pelo também poeta e editor Jorge Reis-Sá, e vem juntar-se a mais dois outros poetas brasileiros: Eucanaã Ferraz, seu antigo aluno, e Alice Sant’Ana, um «frescor» para a nova poesia brasileira. Logo na contracapa de Desdizer pode ler-se que este congrega toda a produção poética de Antonio Carlos Secchin «em forma definitiva». Será que devemos acreditar?

Ler entrevista na integra aqui




Título: Aula de Natação
Autor: Alice Sant’Anna
Apresentação: Anabela Mota Ribeiro
Coleção: Plural
Edição: Imprensa Nacional
Data: segunda-feira, 21 de maio
Horário: 18:30 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Aula de Natação é um livro repleto de lirismo, delicadeza, cor e movimento, elementos que singularizam a escrita de uma das mais novas e talentosas poetas contemporâneas brasileiras.
Alice Sant’Anna tem a capacidade de extrair poesia das coisas simples. Através do seu olhar o prosaico ganha aspetos singulares, fixando indelevelmente a sua personalidade e visão do mundo.

O que chamou minha atenção de chofre foi a qualidade da escrita. Não havia deslize. Sabia parar na linha certa, com uma noção de equilíbrio notável. E sabia — e como — continuar no poema seguinte do mesmo modo. Como seu leitor, ao passar do tempo, fui vendo que sua poética, a partir de Dobradura, tal como um origami, se transformava
subliminarmente, mantendo‑se fiel ao ponto de origem, ao toque do lápis primal, ao desenho das primeiras palavras. Coisa rara, encantadora e firme.
in Prefácio por Armando Freitas Filho

Alice Sant’Anna
Nasceu em 1988 no Rio de Janeiro. Lançou o seu primeiro livro de poemas, Dobradura, aos 20 anos. Publicou Rabo de baleia, que venceu o Prémio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) em 2013 por título de poesia. Pé do ouvido, lançado em 2016, é um longo poema resultado da sua pesquisa de mestrado sobre poesia japonesa. Além desses três títulos, lançou livros por conta própria, artesanais, e por editoras independentes, três dos quais em parceria: Ilha da decepção, com fotografias de Alexandre Sant’Anna; Vinhetas, com Zuca Sardan; e Pingue pongue, com Armando Freitas Filho.

Anabela Mota Ribeiro
Nasceu em 1971 em Trás-os-Montes, vive e trabalha em Lisboa. É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Filosofia (variante Estética) com uma tese sobre «A Flor da Melancolia e o Ímpeto Cesariano (ou a Negação e a Afirmação da Vida) nas Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis». Jornalista freelance, colaborou com diversos jornais e revistas, entre eles, e de forma sistemática, DNa (suplemento do Diário de Notícias), Jornal de Negócios e Público.
fonte: www.anabelamotaribeiro.pt






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Título: Poesia e Artes Visuais - Confessionalismo e Écfrase
Autor: Mário Avelar
Apresentação: Isabel Pires de Lima
Coleção: Olhares
Edição: Imprensa Nacional
Data: segunda-feira, 14 de maio
Horário: 18:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa

Poesia e Artes Visuais — Confessionalismo e Écfrase apresenta uma reflexão em torno do confessionalismo, na qual se defende que este não se confina à representação de topoi psicológicos, mas que se densifica, fazendo do texto esse espaço e instante fluidos de inbetweenness, do qual emerge a reflexão ontológica, a reflexão sobre o tempo, sobre as circunstâncias históricas das quais somos, ainda que invisíveis, atores, sobre as tradições estéticas e as memórias que nos interpelam; enfim, o testemunho. Uma reflexão suscitada pelos objetos que, no espaço público do Museu ou na Galeria, atentando no detalhe ou no encontro com o sagrado, nas motivações teóricas ou no mistério do(s) retrato(s), levam o poeta a meditar esteticamente sobre esse entretanto que será a vida; um entretanto que, para alguns, será um entre-Tanto. E tudo isto devido a um encontro estético entre a palavra e a imagem.

Mário Avelar nasceu em Lisboa em 1956. Professor catedrático de Estudos Ingleses e Americanos, publicou os seguintes livros de ensaios: América — Pátria dos Heróis (1994), Sylvia Plath — O Rosto Oculto do Poeta (1997), História(s) da Literatura Americana (2004), Ekphrasis — O Poeta no Atelier do Artista (2006), O Nascimento de Uma Nação — Nas Origens da Literatura Americana (2008), O Essencial sobre William Shakespeare (2012), O Essencial sobre Walt Whitman (2013). É autor dos romances: Pentâmetros Jâmbicos (2008) e Inveja — Uma Novela Académica (2010). A sua poesia reunida é publicada pela Imprensa Nacional sob o título Coreografando Melodias no Rumor das Imagens (2018).




Programa: A VOZ DOS POETAS
Textos: Gomes Leal
Leitura de poesia: Jorge Silva Melo e Manuel Wiborg | Artistas Unidos
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
Data: 07 maio 2018
Horário: 18:30 h

Entrada livre limitada à capacidade da sala.

Inserido na atividade de programação geral da Biblioteca da Imprensa Nacional, «A VOZ DOS POETAS» é um ciclo de leitura de poesia de autores publicados pela INCM, com periodicidade bimestral.

A perspetiva do poeta enquanto ser incompreendido e infeliz surge em vários textos de Gomes Leal, composições poéticas em que o sujeito lírico se assume como alguém singularmente distante do comum dos mortais. Não se distanciando da visão romântica do poeta, Gomes Leal define-se como um génio inadaptado à sociedade, num misticismo visionário. Inúmeros são os exemplos desta perspetiva do «poeta proscrito e infeliz», como «Soneto dum poeta morto», «Aquele Sábio», «El Desdichado» e «Noites de Chuva» de Claridades do Sul.

Outra caraterística deste poeta finissecular prende-se com a preocupação que manifesta em relação aos seus leitores, nomeadamente na Nota à primeira edição e acrescentada na segunda edição de Claridades do Sul (1901). Aí debruça-se sobre a tarefa do escritor explicitando que a este compete «trabalhar a sua ideia, lapidá-la, poli-la, desenvolvê-la, facetá-la, de maneira que ela seja como um grande elo em que se vão encatenar um rosário luminoso doutras novas, e que ela saia transformada desse vasto laboratório intelectual, por um processo misterioso semelhante ao que dá a Natureza, transformando da lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.»


 
Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.











Luís de Camões
Lírica Completa II
Biblioteca de autores Portugueses
1994
p. 170




VERSOS QU’O PAI QUE FOI P’Ó TRABALHO FEZ À SUA FILHA

Tanta frieza, inha mãe!
Incarrilha-s’ êste inverno:
Ei! Tantas lamas que teem
As istǐradas do rovêrno!

Greta-s’os pézes. E a lũa
É nova: têmos-ĕa feita!
Dês a medre e a faça nũa
Talhada só, forte e bũa,
Nacendo sã-iscorreita.

Parece o paúl da Praia
O sarrado da luzerna.
Não há nem pisca na baia,
Mins ê nã sei se lá vaia,
Qu’ia cobrando ũa perna.

A gente só tem bandalhos
Que nem bandeiras do bodo.
Ist’é que são uns trabalhos!
P’í a-fora, nos atalhos,
A gente alaga-se todo.

Inda mal loze o biraco,
E toca a mundar a ǐeito,
C’o pão de milho no saco.
Isto faz dar o cavaco,
Mins é mundar, e cum geito.

Cando não, mê pai dá fé
De qu’a gente é calaceiro:
— Anda, Pedro, pũi-t’a pé,
Qu’o carneiro mocho inté
Já s’aluvanta prumeiro.

Maria, eh moça, que fazes?
Nã desapegas do qŭente.
Vê lá que pão é que trazes;
Toma tino, qu’os rapazes
São todos três de bum dente.

E agora, bota sintido,
Nã fiques comã ismalmada,
Que já te tens divertido:
Qué-s’êsse milho iscolhido
E essa bezerra tratada.

A gente torna de brebe
E qué ver já tuǐdo pronto.
O cordeiro alvo da neve,
Não há ninguêm que lo leve,
Anda por í comã tonto.

E ó mei-dia, eh ř’paria,
Anda cá, nã sei se m’oives:
Qué-s’ũa bũa papia
De farinha alva e macia
Pǎ vê se s’ingana as coives.

Tês irmãos hoj’ veem mais cedo,
Qu’é pǒ via da toirada.
Deixá-los ir ó fòlguedo!
Vai se qués, nã teinas medo,
Que ficas bem arrumada.

Mins toma tento na bola,
Nã vaias fazê toliça;
Qu’ê já sei qu’o meste-iscola,
Qu’é filho do bate-sola,
Há ǐanos que te derriça.

Mins se topars algum moço
Da tua abetuaduira,
Nã le vires o piscoço:
Ruim cão que vê um osso
E nã lo passa à fressuira.

Qu’ó dispois, cando êle vinher
Tê comio pá licença,
Tê pai, c’o bem que te quer,
Vai dezer que sim, mulher,
Pâ cunsolar a criença.

Cásim vocês! Tamêm eu
Que’stou aqui me casei.
E o pão alvo que Dês deu,
Apresantado no céu
Seja sempre, à bũa lei!

E adês! A Virze te impare
E te dê sorte, Maria.
E sejas o sol e o ar
Do moço que te luvar
Para a sua cumpanhia.

Arco da Traição de Coimbra, 10-VII-22


Poema incluído no volume I — Poesia 1916-1940 — da coleção Obra Completa de Vitorino Nemésio, dirigida por Luiz Fagundes Duarte. Em publicação


NOTA de L.F.D. à edição de 2006: «Neste poema, o Autor procurou reproduzir, por meio do alfabeto convencional, as caraterísticas fonéticas do falar do povo da Ilha Terceira, recorrendo no entanto, quando as limitações do alfabeto não permitiam os efeitos desejados, a alguns sinais diacríticos do alfabeto fonético internacional.»




POEMA DA MULHER NOVA

Vejo-te no mundo que não pára,
como um grande lenço rubro desfraldado.
Vejo-te em mim quando me sinto massa
com milhões de braços e de pernas e uma cabeça de anjo.
Vejo-te na vida em marcha,
nas mãos estendidas.
Vejo-te em toda a vibração,
nas plantações cobertas de girassóis e de papoulas,
no topo dos tractores arroteando a terra.

Vejo-te nua das sedas
com a boca rasgada numa canção de futuro
como um punho ameaçador à pestilência dos homens.

Vejo-te bela
com os cabelos ao vento,
em frente,
sem um talvez: perfeita.

Vejo-te mãe de milhões de homens novos,
de rosto calmo e olhos firmes,
através das labaredas e do fumo,
sem país e sem lar, a caminho da vida
— na descoberta constante.



Mário Dionísio
Poesia Completa Coleção Plural