Rui Lage, natural do Porto, com sete livros de poesia publicados, foi distinguido na 10.ª edição do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2016 pelo livro Estrada Nacional, publicado pela Imprensa Nacional.

... uma viagem com partida e regresso pelo mundo rural, com o itinerário definido poema a poema, estrada a estrada, e onde as representações são apresentadas pelo olhar de Rui Lage
O Prémio Literário Fundação Inês de Castro é um prémio anual que distingue obras publicadas sobre temas «inesianos», como a paixão, a vingança, a tragédia, as razões de Estado no contexto português.

O júri do Prémio em 2016, presidido por José Carlos Seabra Pereira, integrou ainda Mário Cláudio, Isabel Pires de Lima, Pedro Mexia e António Carlos Cortez.




Estrada Nacional é um título da nova PLURAL, a coleção criada por Vasco Graça Moura na década de 1980, hoje dedicada exclusivamente à poesia sob a direção de Jorge Reis-Sá, com design de André Letria.






Nas anteriores edições, foram distinguidos Pedro Tamen pelos poemas de Analogia e Dedos (2007), Teolinda Gersão pelo volume de contos A Mulher Que Prendeu a Chuva e Outras Histórias (2008), José Tolentino de Mendonça pelo livro O Viajante Sem Sono (2009), Hélia Correia pelo livro Adoecer (2010) e Gonçalo M. Tavares pelo livro Uma Viagem à Índia (2011), Maria do Rosário Pedreira pelo livro Poesia Reunida – A ideia do fim (2012), Mário de Carvalho pelo seu livro de contos A Liberdade de Pátio (2013), Luís Quintais pelo seu livro de poesia O Vidro (2014) e Armando Silva Carvalho pelo seu livro de poesia A Sombra do Mar (2015).

Recortes de imprensa:

http://observador.pt/2017/02/16/fundacao-ines-de-castro-premeia-poesia-de-rui-lage-e-carreira-de-maria-velho-da-costa/http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-02-16-Rui-Lage-vence-Premio-Literario-Fundacao-Ines-de-Castro-2016


https://www.publico.pt/2017/02/16/culturaipsilon/noticia/fundacao-ines-de-castro-premeia-poesia-de-rui-lage-e-carreira-de-maria-velho-da-costa-1762248


http://rr.sapo.pt/noticia/76203/fundacao_ines_de_castro_distingue_escritores_rui_lage_e_maria_velho_da_costa


https://www.tveuropa.pt/noticias/rui-lage-vence-premio-literario-fundacao-ines-de-castro-2016/
http://www.revistaestante.fnac.pt/rui-lage-vence-premio-literario-fundacao-ines-castro/

http://www.porto.pt/noticias/rui-lage-e-o-vencedor-do-premio-literario-fundacao-ines-de-castro-2016
https://noticias.up.pt/alumnus-da-flup-vence-premio-literario-fundacao-ines-de-castro-2016/


 

Programa: A VOZ DOS POETAS
Textos: Afonso Duarte
Leitura de poesia: Luís Lucas e Jorge Silva Melo | Artistas Unidos
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
Data: 13 fevereiro 2017
Horário: 18:30 h

Afonso Duarte, poeta


Entrada gratuita limitada à capacidade da sala.

Inserido na atividade de programação geral da Biblioteca da Imprensa Nacional, «A VOZ DOS POETAS» é um ciclo de leitura de poesia de autores publicados pela INCM, com periodicidade bimestral.

Porque gostamos de dar a voz aos poetas, voz alta.



por Diogo Vaz Pinto, in Sol, 21 jan 2017


Contra Mim Falo, título da obra poética de Vasco Gato, acaba de chegar às livrarias e é, a par da reunião da obra do poeta brasileiro Eucanaã Ferraz, uma edição que abre boas perspetivas quanto ao projeto de fazer renascer a Plural.

A estreia no ano 2000, se não foi das mais seguras, viria a ser marcante por dar início a um percurso que hoje coloca Gato como um dos nomes mais firmes da nova poesia portuguesa, essa que não recusa nem vira as costas aos grandes abalos provocados na tradição poética portuguesa no século XX.

DVP — Este título, Contra Mim Falo, pressupõe a ideia da poesia como o discurso com o qual uma pessoa se condena, ao invés de procurar salvar-se?

VG — Claramente. Espero que esse fogo se mantenha, o da poesia como o grande adversário da complacência. É fácil não ter complacência com o mundo, com o estado das coisas, mas depois seres bastante benevolente contigo próprio. O título pode estender-se a essa investigação que deves sempre manter, um estado de vigilância e confronto contigo mesmo. Na verdade, nasceu da ideia de reunir todos os livros, que não era algo que eu desejasse propriamente, sabendo que ia ter de lidar com muitas coisas que, neste momento, me põem a falar contra mim, mas, num sentido mais lato, creio que sempre foi essa a matriz.

DVP — Nos últimos tempos tem traduzido muita poesia. Há um lado mais sedutor na tradução do que na escrita de poesia?

VG —
Sim. Há o próprio deslumbramento de andar a folhear e ser de repente apanhado por qualquer coisa. Já há o ponto de partida do fascínio e o desafio é só – é só? – transpô-lo, fazer com que mantenha a palpitação. Na escrita tens de andar à procura de um deslumbramento ou de uma inquietação. Às vezes penso que já traduzi muito, julgo que já não vou encontrar muitos poemas… E de repente, no último ano, depois de ter reunido uma série de poemas traduzidos, já tenho mais cento e tal páginas de poemas. Não vou dizer que é inesgotável, mas é fascinante essa promessa renovada de que vais encontrar uma coisa que te vai derrubar. É esse o gozo do tradutor, neste caso, o saber que andam por aí à espera que tropeces neles, ou que alguém tos faça chegar. Que vais ter outra vez esse momento de descoberta.

Ler a entrevista na íntegra:

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Montagem sobre ilustração de Óscar Rocha (iOnline)

Texto: Diogo Vaz Pinto

Rui Lage encerra com Estrada Nacional um ciclo poético que das paisagens rurais faz o túmulo doce de um certo país a que dissemos adeus.

O triunfo desta poesia está no golpe nos rins, mais do que no golpe de asa,  pelo modo como nos habitua, como os seus primeiros passos envenenam as expectativas que tivéssemos e as leva a enterrar, para não fazer de ânsias o seu caminho. Para que não lhe perguntem sempre se já chegámos, se é isto a poesia. Pode ser, logo vemos, mas há mais coisas neste mundo que merecem atenção. E mostrando que a coisa aqui se faz, um pouco como insistiu João Cabral de Melo Neto, que a música pode ficar calada, o silêncio também tem gradações, até ritmos, também faz o ouvido: «Eu vi que era possível escrever uma poesia áspera (...) uma poesia que não embalasse o leitor, uma que não fosse um carro a deslizar num pavimento de asfalto, aquela coisa lisa, mas que o leitor – que é carro – passasse em cima de uma rua mal calcetada, em que o carro fosse sacolejado a todo o momento. Uma poesia em que o leitor ao passar de uma palavra para a outra tivesse que pensar».


Pressente-se a morte por desgaste e desgosto de uma poesia que se deixou tolher rente a um registo biográfico, e condescente nisso. De novo emerge um enorme cansaço de toda a moleza que se dobra em sarcasmos. Há um desejo de mais que agressão, ultrapassagem face a uma realidade que cada vez mais embosca, apouca, garante que não há outra via.  

Ler o artigo completo aqui.


Disponivel nas lojas INCM:


https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=103030Rui Lage
Estrada Nacional
Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
2016











Título: Estrada Nacional
Autor: Rui Lage
Coleção: PLURAL
Edição: INCM
Data: sexta-feira, 06 de janeiro
Horário: 18:00 h
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional
R. da Escola Politécnica, n.º 135
Lisboa









Uma viagem com partida e regresso, com o itinerário definido poema a poema, estrada a estrada, através do olhar de Rui Lage, Estrada Nacional fecha o ciclo dedicado ao mundo rural iniciado com Corvo (2004).
Sou estes montes espaçosos
que me desolham de seus cumes
e milenários me desossam.
Sou esta aparência que a viagem deforma,
clarão de passagem, pobre tolo
encandeado na estrada nacional
onde vem morrer de ambos os lados
suave extensão de campos adormecidos
sob as estrelas, e aldeias flutuando
num mar de púrpura
e calma.
in «EN 315», p. 16


Se regresso não sou eu que regresso
mas um outro que já não vem ao meu encontro
quando desço à vinha
e me apanho a erguer pedras a eito
— à procura do sapo.
in «EM 596», p.22


Já disponível nas lojas INCM.
 

Tal como em anos anteriores, escolho dez livros sobre os quais escrevi. Igual destaque mereciam duas obras nascidas nos jornais: as crónicas de Vasco Pulido Valente e as reportagens de Paulo Moura. No ensaio, a Assírio & Alvim deu continuidade à edição de um modernista essencial, Walter Benjamin, a Cavalo de Ferro traduziu as aulas de Cortázar, e a Relógio d’Água propôs o júbilo de Chesterton, a clareza de Orwell e os «Escombros» de Ferrante. E como não acrescentar as sinuosas memórias de Le Carré? Alguns ficcionistas estrangeiros (DeLillo, Oz, Llosa ou Barnes) continuam a beneficiar, e bem, de tradução quase imediata. Versões de poesia houve poucas, mas importantes, de Ovídio e Bashô a Rilke e Eliot, passando por «Eugénio Onéguin». É impossível referir todas as reedições recomendáveis, mas vale a pena chamar a atenção para projetos inventivos e garimpeiros como a E-Primatur.

Tudo o que Existe Louvará, Adélia Prado, Assírio & Alvim

Poesia, Eucanaã Ferraz, Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Histórias Aquáticas, Joseph Conrad, Sistema Solar


Manual para Mulheres…, Lucia Berlin, Alfaguara


Artigos Portugueses, Miguel Tamen, Assírio & Alvim


Cartas Reencontradas, Pedro Eiras, Assírio & Alvim


Será que os Androides…, Philip K. Dick, Relógio d’Água


Um Copo de Cólera, Raudan Nassar, Companhia das Letras


Estrada Nacional, Rui Lage, Imprensa Nacional-Casa da Moeda


Obra Poética I, Ruy Cinatti, Assírio & Alvim


Pedro Mexia
in E | Expresso, de 23.12.2016



https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=103020                   





in E | Expresso, 03.12.2016


E os textos enchem-se de paisagens portuguesas e de versos portugueses, geralmente postos de pernas para o ar: o poema «ensina a estar em pé» em vez de ensinar «a cair», o «desejo absurdo de sofrer» passa a um «desejo absurdo de nenhum sofrer», e o «transforma-se o amador na cousa amada» assume contextos mais quotidianos, de modo que um «muda-se o amador» diz respeito a uma trivial mudança de casa. Sophia, Eugénio e Gastão são interlocutores constantes, como se a poesia brasileira e a portuguesa voltassem a ser íntimas, como foram num passado não muito distante.
(...)
A variedade de motivos usados faz de Eucanaã Ferraz o menos previsível dos poetas.
(...)
«O que serei de mim quando sair de cena/ o mágico? Que restará do encanto?/ Há de ficar a música de quando?/ Algum espinho? Um ás? O espanto?»

Pedro Mexia,
in E | Expresso, 03.12.2016
https://drive.google.com/open?id=0B1TJkxizP5WuMXczWUQ1MkljTEk

Eucanaã Ferraz
Poesia (1990-2016)
Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
2016
618 pp.







http://www.publico.pt/culturaipsilon/o-melhor-de-2016/livros

Poesia 1990-2016 de Eucanaã Ferraz é um dos 10 melhores livros de poesia publicados em 2016.

Reúne a obra de um grande poeta brasileiro que presta homenagem a Portugal, aos seus lugares e poetas. Poesia do lado do objecto, das coisas mais simples cuja fímbria ilumina ficando essa cintilação a reverberar no sujeito. No leitor e nas margens da letra. A porta aberta da geladeira de noite, torna presente o escuro. Uma mestria oficinal marca a sua obra, move-se na versatilidade da prosódia como quem dança.


Maria da Conceição Caleiro
in «Cultura Ípsilon», Público,

Um título inserido na nova coleção PLURAL.

A ler, aqui, a excelente entrevista que o poeta deu ao Público, aquando do lançamento.


Programa: A VOZ DOS POETAS
Textos: Alexandre O'Neill
Leitura de poesia: João Meireles e Jorge Silva Melo | Artistas Unidos
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)
Data: 14 novembro
Horário: 18:30 h




Entrada gratuita limitada à capacidade da sala.

Inserido na atividade de programação geral da Biblioteca da Imprensa Nacional, «A VOZ DOS POETAS» é um ciclo de leitura de poesia de autores publicados pela INCM, com periodicidade bimestral.

Porque gostamos de dar a voz aos poetas, voz alta.

Uma parceria Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Artistas Unidos.

Próximas sessões:

23 de Janeiro: Vitorino Nemésio por Lia Gama e Jorge Silva Melo
13 de Fevereiro: Afonso Duarte por Luis Lucas e Jorge Silva Melo

 

Antena 2, 27 e 28 set. 2016

Eucanaã Ferraz — o poeta brasileiro que se surpreende pelo facto de a sua obra poética, toda reunida, resultar num volume com 600 páginas — é o convidado de Luís Caetano, em a Ronda da Noite (Antena 2), quando a INCM acaba de publicar a sua poesia completa. | 27 Set, 2016

Eucanaã Ferraz — (…) Não me apeteceu melhorar os poemas. Eles são o que são, vivem com os seus erros, com os seus acertos,… Eles estão prontos, eles vivem no tempo deles. Quando você os traz para o presente, eles precisam vir com a sua cara, com o seu jeito, com a sua natureza própria.

Luís Caetano — E mudou muito, como poeta, como homem?

EF — Ah, eu acho que sim. O leitor perceberá que os poemas eram mais breves, os versos também eram mais curtos, a respiração era mais miúda, a observação do mundo era de um mundo menor, mais sob controle…. Os primeiros livros quase que se aproximam de uma natureza morta, de um mundo em pequena escala. (…) Acho que depois as paisagens foram tomando conta, foram crescendo, foram-se expandindo, os temas foram crescendo, os versos foram crescendo. Então agora me surpreendo, acho que tudo ganhou mais volume. (…) Acho que tem um outro tipo de força.

(…)

EF — (…) O poeta é um artista muito ambicioso. Todo o poeta ele quer que cada poema seja um objeto necessário ao mundo. (…) É uma coisa curiosa, porque ao mesmo tempo qualquer poeta sabe da sua fragilidade. (…) Todo o poeta sabe que está fazendo uma coisa muito difícil, de muita exigência. Todo o poeta sempre se pensa fazendo parte de uma família, onde há Camões, Drummond de Andrade, Shakespeare, Goethe,… Todos os génios que um dia já escreveram poesia existem na sua cabeça. (…) Um poeta às vezes demora muito tempo até admitir que é poeta, até usar o título de poeta.

Ouvir a entrevista aqui:




Eucanaã Ferraz
Poesia (1990-2016)

Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Setembro de 2016


















Fotografia: Joana Freitas



Por Hugo Pinto, in ípsilon, Público, 30 setembro 2016


Conhecedor profundo e lúcido da realidade da poesia portuguesa, Eucanaã faz pontes constantes entre as expressões poéticas dos dois lados do Atlântico


Poesia 1990-2016 sai antes da edição brasileira da sua poesia reunida. No prefácio desta edição, o ensaísta Carlos Mendes de Sousa (CMS) considera Eucanaã Ferraz um poeta de “estirpe rara”, frisando a “mestria oficinal” de um autor da “exuberada presença do sol”. Eucanaã escreve uma poesia luminosa, no sentido em que lhe importa a claridade e, sobretudo, a clareza. Como nos diz o próprio Eucanaã Ferraz nesta entrevista, gosta que o jogo seja nítido, sem obscuridades capciosas, nem enigmas.

Ler a entrevista completa aqui:



https://drive.google.com/open?id=0B1TJkxizP5WuWng5SnJMSzFmM2s 



https://drive.google.com/open?id=0B1TJkxizP5WuaHZqZkRtWkUxVUE


https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=103020




Eucanaã Ferraz, o notável poeta brasileiro nascido no Rio de Janeiro em 1961, acaba de publicar na Imprensa Nacional o seu mais recente livro. Chama-se Poesia, e é a compilação dos poemas que escreveu desde 1990 até ao presente.

Professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro e organizador, entre outros, da Poesia Completa e Prosa de Vinicius de Moraes, da coletânea de letras de canções de Caetano Veloso Letra Só (2002), e do livro de textos em prosa de Caetano O Mundo não É Chato (2004), Eucanaã Ferraz encontra-se atualmente em Portugal a fim de participar no FOLIO, o festival literário de Óbidos que está prestes a começar.

Mas antes, vamos ter o privilégio de encontrá-lo na Biblioteca da Imprensa Nacional, para apresentar o seu novo livro Poesia acompanhado pelos também poetas Pedro Mexia e Jorge Reis-Sá.

Chega a Portugal, antes de aparecer no Brasil, um objeto precioso que reúne a obra de um poeta brasileiro maior. Eucanaã Ferraz é um poeta de uma estirpe rara, um sofisticado poeta dos nossos dias, como são os raros os poetas da delicadeza pura. Uma incomum cintilação e uma extraordinária mestria oficinal marcam toda a sua obra. Brasileiro do século XXI, destacado entre os mais destacados, antes de tudo poeta. Não há exagero nenhum nesta afirmação. Poderia começar de muitas maneiras esta apresentação do seu nome e da sua obra. Seria justo falar de honrarias, dos prémios que recebeu, da repercussão crítica, etc. Prefiro simplesmente colocar o acento no sentido da recompensa maior que nos é dada por recebermos em primeira mão este objeto luminoso, a sua Poesia.

O nome não é desconhecido entre nós. E no Brasil um lugar-comum recorrente nas apresentações da poesia de Eucanaã Ferraz refere uma evidência, a ligação privilegiada do autor a Portugal.


Carlos Mendes de Sousa
in «À Beira da Beleza»,
o prefácio à presente edição


Um grande volume de excelente poesia contemporânea em língua portuguesa, publicado em primeira mão no nosso país, na nova Coleção PLURAL.


20 de setembro, às 18h30, na Biblioteca da Imprensa Nacional.
Rua da Escola Politécnica, n.º 135, em Lisboa


RAS

  
 
in Expresso de 10-09-2016,
E, «CulturasLivros», p.71




«O que mais surpreende nesta história do século vinte, brilhante livro de estreia, distinguido com o Prémio INCM/Vasco Graça Moura 2015, é a escala e o fôlego do seu projeto literário. Em 216 fragmentos, José Gardeazabal leva a cabo uma verdadeira "travessia" do século XX, um tempo em que coexistiram os maiores avanços tecnológicos e civilizacionais, as grandes revoluções da ciência, da arte e do pensamento, com tragédias de proporções bíblicas, em que pereceram milhões de pessoas, vítimas de dois conflitos mundiais e das máquinas de extermínio dos regimes totalitários.

É então algures entre o assombro e a perplexidade que se coloca esta poética (composta por um magma de vozes, emergindo do tumulto da História), este olhar que parece planar sobre os acontecimentos e as transformações do mundo, contaminado pela "excitação do movimento/ quando nos deslocamos/ (ao vento)", sem nunca perder um sentido cénico das coisas: "chegámos aqui a pé, convidados para um teatro". No palco desse teatro assistimos às convulsões sociais e políticas, aos triunfos do progresso (os arranha-céus, as cidades fervilhantes, o apogeu da indústria, o primeiro avião dos irmãos Wright, as vacinas, a corrida espacial), mas também todas as hecatombes, o vórtice da guerra, as energias esbanjadas num rasto de morte.

A lógica da ordenação dos fragmentos não é linear, não segue uma sequência estritamente cronológica, é feita de avanços e recuos, pausas, hiatos, acumulações, momentos disruptivos, como se aos leitores coubesse o trabalho de reunir os estilhaços que resultam de uma enorme explosão. Embora aqui e ali sejamos elevados ao lugar do demiurgo que olha de cima ("e é possível que o universo se contraia novamente/ e um dia expluda como uma mina e as cinzas continuem a mover-se no ar/ os sons esfriem/ e o fumo dos sacrifícios originais se disperse enfim"), o autor nunca deixa que o poema resvale para a megalomania. O estilo é quase neutro, enumerativo, sem pathos, sem retórica, na procura da palavra estritamente necessária. Um verso alude a uma poesia "parecida com pedras" e há algo dessa nudez elementar, dessa secura, na escrita de Gardeazabal. As muitíssimas referências históricas e culturais, por exemplo, ou são discretamente sinalizadas com recurso ao itálico, ou são dissolvidas no tecido do texto. Apesar do tom geral marcadamente pessimista, vemos a beleza surgir "em locais inesperados". E ao "raspar todas as antigas camadas do pó", é possível "descobrir as formas e as cores que brilham depois da viagem".»

José Mário Silva
in Expresso de 10-09-2016, E, Culturas, «Livros», p.71

Disponível nas nossas lojas:

José Gardeazabal
história do século vinte

Coleção PLURAL
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
2016




Programa; A VOZ DOS POETAS
Textos: Mário Dionísio
Leitura de poesia: Jorge Silva Melo | Artistas Unidos
Local: Biblioteca da Imprensa Nacional (Lisboa)
Data: 19 setembro
Horário: 18:30h
Entrada gratuita limitada à capacidade da sala.




Textos do livro:

Mário Dioníso
Poesia Completa
Coleção PLURAL
INCM, agosto de 2016


Inserido na atividade de programação geral da Biblioteca da Imprensa Nacional, «A VOZ DOS POETAS» é um ciclo de leitura de poesia de autores publicados pela INCM, com periodicidade bimestral.
Porque gostamos de dar a voz aos poetas, voz alta.


Uma parceria Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Artistas Unidos


Próximas sessões:
  • 14 de Novembro: Alexandre O´Neill por João Meireles e Jorge Silva Melo 
  • 23 de Janeiro: Vitorino Nemésio por Lia Gama e Jorge Silva Melo 
  • 13 de Fevereiro: Afonso Duarte por Luis Lucas e Jorge Silva Melo

Fotografia: Luis Barra


















in Expresso, E, Culturas, 3 de setembro de 2016


Em história do século vinte a escrita nunca é enfática nem grandiloquente. Pelo contrário, dir-se-ia que o autor impôs a si mesmo um certo rigor analítico, uma certa objetividade, uma toada precisa que se abstém de quaisquer arroubos. José Gardeazabal corrobora: «Não pertenço à tradição da catarse lírica. Apenas da catarse.»

Ler entrevista completa:

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Página 2



Fotografia: arquivo A Capital, EP

in Expresso, E, Cultura, de 27 de agosto de 2016


Não há melhor homenagem que se possa fazer a um escritor do que tornar possível o acesso à sua obra. E por isso o verdadeiro acontecimento do centenário de Mário Dionísio materializa-se na pubicação da Poesia Completa, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, na recentemente recuperada coleção Plural.
(...)

Teórico do neorrealismo, também foi neorrealista na prática poética, mas de uma forma que o distingue claramente da maioria dos companheiros de jornada.
(...)

Ao reunir 420 poemas, este volume mostra a extraordinária diversidade de produção poética de Mário Dionísio (...).

Ler artigo completo.

Página 1

Página 2


Apresentação do livro: Poesia Completa
Autor: Mário Dionísio
Local: Casa da Achada * (Lisboa)
Data: sábado — 16 de JULHO
Horário: 18:00 h
Entrada livre.

Poesia Completa  reúne cerca de 420 poemas escritos ao longo de quase 50 anos (entre 1936 e 1982).

A apresentação — que contará com a presença de Jorge Silva Melo, autor do prefácio a esta edição, e de Jorge Reis-Sá, diretor da nova Coleção PLURAL — incluirá ainda a leitura, por Inês Nogueira e Isabel Cardoso, de uma cuidada seleção de poemas extraídos de Le feu qui dort, um dos 3 livros que integram esta Poesia Completa e que, publicado originalmente em francês, se apresenta nesta edição pela primeira vez acompanhado da magnífica tradução inédita para português por Regina Guimarães.

Os poemas serão lidos em embas as línguas, em jeito de antecipação da própria experiência que se tem ao ler a poesia de Mário Díonísio nesta edição da Imprensa Nacional.

A apresentação de Poesia Completa de Mário Dionísio insere-se no programa «MÁRIO DIONÍSIO: os primeiros 100 anos», organizado pelo Centro Mário Dionísio por ocasião do Centenário do seu nascimento.


*  A Casa da Achada é a sede do Centro Mário Dionísio.Morada: Rua da Achada, n.ºs 11 r/c e 11B, na Mouraria (próximo da Praça da Figueira, da Rua da Madalena e da Praça Martim Moniz).

in Jornal de Letras e Ideias, n.º 1193, de 22 de junho a 05 de julho de 2016, pp. 6-8


https://drive.google.com/open?id=0B1TJkxizP5WuTGtqb2lxZ3VIb3MRetrato e entrevista com um escritor que começa a escrever na leitura, que convoca ideia e mundo não literários e que ameaça com vários livros nos próximos tempos (...)










Sempre teve gosto em escrever, sentindo até que viria a ser coisa importante.

https://drive.google.com/open?id=0B1TJkxizP5WuZUxlT1cwRmF5dE0Hoje sabemos que o século XX morreu mas a história não acabou. E o século mudou depois de morto, tornando-se uma história de sobrevivências. Os escritor quer ser o sobrevivente que conta a história.







https://drive.google.com/open?id=0B1TJkxizP5WuQW9KQ29IMklrVG8As referências muito concretas que sobrevivem são como bóias de salvação que são lançadas mas, no entanto, somos obrigados a nadar logo a seguir. Sem referências mas com a estranha sensação de familiaridade. Foi uma escrita impulsiva e livre, cara a cara com os factos, mas quase submergido por eles.







Os reinos e os impérios poderosos,
que em grandeza no mundo mais creceram,
ou por valor de esforço floreceram
ou por varões nas letras espantosos

Teve Grécia Temístocles famosos;
os Cipiões a Roma engrandeceram;
doze pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosos.


Ao nosso Portugal (que agora vemos
tão diferente de seu ser primeiro),
os vossos deram honra e liberdade.


E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
do braganção estado, há mil extremos
iguais ao sangue, e móres que a idade.
 

Lírica Completa, Vol. II
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Lisboa, 1980

por Tânia Pinto Ribeiro



Até agora escreveu mais prosa e teatro que poesia, mas foi precisamente no terreno fértil dos poemas que José Gardeazabal sobressaiu por entre mais de 200 candidaturas à primeira edição do prémio INCM/Vasco Graça Moura. E foi precisamente a sua história do século vinte, «um livro de saltos e acumulações», no dizer do poeta, que acabou por vencer, por unanimidade dos votos do júri, o disputado galardão da editora pública. Uma história escrita a partir de factos e de alguns recuos, que o autor compôs há cerca de oito anos, e que vem agora estrear a renovada coleção Plural, iniciada em 1982 por Vasco Graça Moura. Uma espécie «de cartografia do próprio tempo, um olhar filosófico para a realidade que colhe o nó da questão do século XX, uma antiepopeia, um louvor não lírico, quase cirúrgico que não deixará nenhum leitor indiferente», assim se referiu José Tolentino Mendonça, presidente do júri, à obra distinguida de Gardeazabal. Quanto ao prémio, diz Gardeazabal que significou sobretudo um reencontro do autor com a sua obra. E se cada escritor desenvolve uma relação pessoal com a escrita, Gardeazabal não foge à regra: gosta de escrever todos os dias, e normalmente trabalha em dois ou mais projetos ao mesmo tempo. Quanto à palavra «profissional» diz que convive mal com a literatura, mas que a literatura é a sua forma de viver. Já a inspiração encontra-a na leitura, porque afinal «Ler é o princípio da Literatura». E se Theodor W. Adorno defendia que depois de Auschwitz é impossível escrever poemas, Gardeazabal vem refutar o mandamento do filósofo alemão e vem mostrar com esta sua história, como o século feito de tragédias, bombas e Holocausto — mas também de pequenas coisas, como pessoas a sorrir no canto das fotografias — nos transformou totalmente. E à Literatura também. Vem provar que neste já adolescente século XXI e numa Europa assolada por crise(s) sucessiva(s), a poesia continua viva e em toda a parte. E mais, numa «poética que arrisca alimentar o esquema das oposições, num exercício invulgar, notável e vertiginoso» José Gardeazabal consegue também a proeza de conduzir «a literatura para um lugar novo», como tão bem salientou o júri do prémio, composto por José Tolentino Mendonça, Jorge Reis-Sá e Pedro Mexia. Um prémio que vem revelar um poeta novo às letras portuguesas contemporâneas. Entrevista a José Gardeazabal.




PRELO — Nadine Gordimer, Nobel da literatura 1991, dizia que a «poesia é um esconderijo e um altifalante». Concorda?

José Gardeazabal — A literatura é tanto exposição como esconderijo. Por vezes esconder é o princípio de ver. Há uma tradição da poesia que a torna a campeã da exposição, uma tradição que foi reiterada até à adulteração. Em relação a essa poesia, a escrita de história do século vinte está mais do lado do esconderijo. Poesia escondida atrás de um século. A história tem aqui algo de esconderijo, de não exatamente. Mas em muitos outros textos, ficção, teatro e outros, acho que estou mais do lado da exposição.

Para mim a literatura tem algo de recuo e de grito. Escrever é como dar um passo atrás e, em vez de sair um grito, sai literatura. É um ajuste de contas com o mundo. Lentamente, e muitas vezes em silêncio. Mais silêncio que altifalante. Certo é que a literatura enquanto esconderijo nos revela coisas novas e verdadeiras sobre nós, individual e coletivamente.

P — Como teve conhecimento do resultado do Prémio INCM/VGM?

JG — Através de um telefonema muito simpático do José Tolentino Mendonça.

P — E como reagiu quando soube que era o vencedor? 

JG — Fiquei contente.




P — Recorda-se dos primeiros poemas que escreveu? Como começou a sua aventura literária?

Sim, dos primeiros poemas e dos primeiros outros textos.

P — A prosa é um terreno que lhe poderá ser fértil também?

JG — Até agora escrevi mais prosa e teatro que poesia. Primeiro há a literatura, só depois a forma da literatura. Romance, teatro, poesia, prosa curta, tudo são veículos para a literatura. O meu foco é nas ideias e nas palavras, só depois surge o veículo, prosa, poesia, o que seja. Acontece começar um livro que pensava vir a ser de poesia e vê‐lo exigir ser prosa à minha frente. Ou o contrário, de prosa em poesia ou teatro. Nesses momentos temos de respeitar o texto. Fazer literatura é também respeitar a forma da literatura.

P — Onde vai encontrar inspiração?

JG — Gosto de ler quase tudo. Ensaio, teatro, ficção, poesia. Não é para mim um prazer ter um bom livro para ler e não o fazer. Ler é o princípio da literatura. Não é, certamente, o fim. Mas é o princípio.

P — Tem escritores de eleição?

JG — Há muitos autores que fazem parte importante da minha vida. A sensação de descobrir um desses autores é sempre de uma estranha familiaridade e humanidade partilhada. É um acontecimento de alegria.

P — O que é que os leitores podem esperar de história do século vinte?

JG — É difícil falar sobre um livro. É um objeto que fala por si, que diz o que quer dizer e por vezes diz mais do que o autor pode dizer. Diz e pensa. Se correr bem, o livro pensa por si.
Este texto é feito de fragmentos, saltos, acumulações. Num certo sentido o contrário de história. Não há personagens, não há ações consequentes, há uma multidão de factos, movimentos, observações. Não há culpas, responsabilidades, vencedores. Num outro sentido, mais profundo, este texto é uma história honesta, um fluxo de consciência do século. O século vai‐nos dizendo coisas mas não lhe conseguimos apontar o dedo. Não o conseguimos agarrar.

Uma certa ofuscação não é propositada, acontece. É como se o escritor visse mal e retirasse os óculos para compreender melhor. E neste caso do século vinte, compreender pode vir de ver pior, ver de longe, com alguma saudável miopia. A primeira coisa que perdemos quando vemos mal ao longe são as personagens, as datas, as simplicidades narrativas. Este livro é uma história escrita a recuar, um passo atrás até perder datas e nomes, perder fios condutores, um observador que recua em relação à história até a transformar em literatura. Um recuo que se torna poesia.

Acho que este texto pode ser lido a partir do ponto que quisermos e terminar também onde quisermos. De certa forma podemos ler apenas frases ou conjuntos de palavras. É uma literatura de fragmentos, como aqueles fragmentos gregos em que se suspeita que alguém gostou de alguém, ou alguém matou alguém, mas não sabemos, não temos a certeza. Nesta história também impera o fragmento. Não é cada página que é o centro, o poema, são os vários fragmentos, individualmente, que têm personalidade própria. Os fragmentos ou o texto todo, ambos têm uma personalidade própria.

Por exemplo, o índice. Foi uma agradável surpresa. Acaba por oferecer uma leitura própria, ao mesmo tempo alusiva ao texto completo, leitura sumário, e por outro lado um novo texto, vivo por si mesmo. O índice foi uma sugestão dos editores da INCM e de certa forma sugere um método de leitura do texto. Além de acrescentar um «poema», por assim dizer.


P — Para si, na História do século XX, qual foi o acontecimento maior?

JG — Talvez um dos sentidos deste livro de poesia com o século vinte em fundo seja precisamente enterrar os acontecimentos concretos do século. Os grandes e os pequenos, as bombas, as barbáries, e as pessoas a sorrir no canto das fotografias. Está muita coisa lá, mas subentendida e por vezes perdida para sempre. É uma caixa com o século que se afasta de nós, até percebermos apenas contornos, impulsos. Há coisas do século vinte aqui escondidas. Escondidas do leitor e do autor. Não é o autor que as esconde, é a natureza do século e do texto que o faz. Nisso a poesia deste século vinte é como a história, trabalha sobre as sombras, é o contrário da transparência.

Não me sinto à vontade para eleger o acontecimento mais importante do século que passou. De certa forma é fácil cair num campeonato da ignomínia quando se trata do século vinte. Neste texto de poesia, como em outros textos meus, acho que o pior do século passado está presente, em pessoa ou na sombra, mas gosto de resistir a uma certa complacência na convivência com a desgraça. Dito isto, as grandes tragédias do século vinte mudaram o que somos como seres humanos. Mudaram a nossa imagem no espelho, mudaram a literatura. Neste século vinte e um estamos do outro lado do espelho, e isso influencia como nos vemos e como nos escrevemos.

Um exemplo: Beckett. No À Espera de Godot, mas também na sua prosa, Watts, Murphy, Molloy, etc. É tudo extraordinário. É uma literatura do fim, que nesse sentido é uma literatura do século vinte. É um caminho absoluto que chega a uma rua de um só sentido. É um dos grandes fios da literatura. Algum desse sentimento de fim e de desamparo é lido hoje por nós como eco de uma civilização que viveu o Holocausto. É o nosso ponto de vista, a partir de hoje, sendo hoje o fim do século passado e o princípio deste século. Mas podemos ler o À Espera de Godot como literatura pós-holocausto ou literatura pós‐bomba atómica, e há argumentos que sugerem que a experiência das explosões nucleares foi a determinante para Beckett, para a espera por Godot. As explosões nucleares eram o acontecimento marcante no imediato pós‐guerra. Só depois veio o Holocausto. Duas tragédias com significados e sentidos diferentes, que nos responsabilizam de forma distinta. Mas as duas mudaram o que é ser humano, e o que é pensarmo‐nos humanos daqui para a frente. Ora, isso é relevante para a literatura? É e não é. Se lermos Godot à luz do Holocausto ou à luz das explosões nucleares lemos duas obras diferentes. Ambas magníficas, mas diferentes. Esse é o papel dos acontecimentos únicos na literatura. Aumentam o sentido, espalham‐no em várias direções. Nesta história do século vinte temos, por assim dizer, o grande e o infinitamente pequeno, o histórico no sentido político e o histórico no sentido pessoal. É um livro de saltos e acumulações, como aqueles mecanismos anteriores ao cinema em que espreitávamos por uma ranhura para ver figuras a passar e essa passagem dava‐nos a ilusão de movimento. Imagens fixas cuja passagem imitava o cinema. Cinema antes do cinema. Esta poesia é uma tentativa de espreitar. Vamos ver menos, ver mais, ver coisas diferentes. Parte do que fica é o movimento do século. Ou a ilusão do movimento.

P — Tem projetos para o futuro no campo literário?

JG — Muitos dos meus projetos futuros foram completados no passado, nos últimos 8 a 10 anos. Gosto de escrever todos os dias e normalmente trabalho em dois ou mais projetos ao mesmo tempo. Tenho uma ideia dos três ou quatro textos que quero trabalhar cada ano, mas muitas vezes as coisas mudam e outras ideias que pensava estarem à espera do seu tempo, impõem‐se, mudo os planos. «Planos» aqui é tudo entre aspas.

Tenho uma ideia‐mãe, um título, alguma ideia do tempo que preciso de dedicar ao projeto. Depois é começar a escrever até acabar de escrever.

Revejo os textos um ou dois anos depois, quando penso que os gostaria de ter prontos para publicação. Outros ficam escritos a cru, à espera outra vez do seu tempo.

Ou seja, sim, tenho vários projetos para o futuro.

P — Gostava de viver inteiramente da escrita? Isto é, ser um escritor profissional?

JG — A palavra profissional convive mal com a literatura. Mais tempo para escrever, sim, seria muito bom. A literatura é a minha forma de viver e um grande prazer.
https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=102967
P — Agora que o livro já saiu do prelo, o que acha do resultado final? Gostou da experiência de publicar na editora pública?

JG — Devo dizer, com a sinceridade possível, que o cuidado na edição e a qualidade do volume final excederam todas as minhas expectativas. Houve paciência para cuidar do texto por parte dos editores, e uma grande inspiração no grafismo da capa e do texto. A palavra pública, como em editora pública, adquiriu para mim um sentido mais concreto e profundo depois desta experiência. Associo‐a a cuidado e esmero.

P — Todos nós desenvolvemos uma relação pessoal com a escrita. O texto, neste caso, os poemas não nascem sem um processo de escrita. Qual é o processo de escrita de José Gardeazabal?

JG — Leio muita coisa diferente. Para mim ler e escrever são atividades irmãs e irmãs gémeas. Preciso de ler para escrever e escrever ajuda a ler melhor. Escrever é ler melhor.

O meu dia ideal começa pela leitura, depois a escrita chega, e a partir de determinado momento as duas coisas estão presentes e muito próximas.

Então quase tudo, uma conversa num café, um programa de rádio passam a ser alimento para a literatura. Literatura é escrita e leitura, pelo menos essas duas coisas.

Este livro teve a sua vida, noutro lugar. Agora como que volta para mim, já envolto numa capa própria, algo fechado sobre si, mas com pistas novas e verdadeiras. O diálogo que tem comigo é diferente do diálogo do tempo da escrita. Agora é uma coisa mais equilibrada. Existe o livro e o escritor, é um diálogo, acontece em duas direções. No início, o exercício da escrita tem algo de monólogo e só depois se torna um diálogo. Isso é bastante gratificante. Gostei de voltar a encontrar e falar com este livro. Tornou‐se um amigo.

P — Quanto tempo demorou a escrever este livro?

JG — Este livro foi escrito há cerca de oito anos. Demorou três a quatro meses a escrever e revi‐o há um ano atrás.

P — Posso saber quem foi a primeira pessoa a quem deu a ler os seus poemas?

JG — A primeira pessoa a ler os meus textos foi o meu pai. Gostou. Leu romance e teatro, anda não tinha lido poesia. Algumas amigas e amigos também leram coisas pequenas, fragmentos. No caso de história do século vinte tenho de agradecer aos membros do júri, pois eles foram, neste caso, primeiros leitores. Isto se aceitarmos que quem escreve não é leitor de si mesmo, ou é um leitor bastante imperfeito de si mesmo. A minha revisão deste texto recordou‐me o que ele tem de resistente, de sólido e duro, de difícil, por isso o meu reconhecimento a estes primeiros leitores.

Março de 2016